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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Missionariar e misericordiar

 Geraldo Trindade


“Missionariar” e “misericordiar” colocados como verbo indicam ação e movimento. No âmbito eclesial estas duas realidades se ligam a um mistério muito maior, pois apresenta a ação do Espírito Santo, ruah, sopro, que impulsiona e dá vida à Igreja e a direciona à vivência da fidelidade no seguimento do Seu Senhor, Jesus Cristo.
  O missionário de hoje na vida da Igreja não é mais unicamente aquele que sai de sua casa, de sua cidade e do seu país e vai a outros pregar o Evangelho. A missão é, sobretudo, “missio Dei – missão de Deus”. Se compreendemos que a missão tem sua origem em Deus, assim também o agir do cristão, do missionário tem sua origem em Deus. Por Ele é chamado (Is 6, 1-13; Jr 1, 4-10; Mt 4, 18-22), por Ele é capacitado (1 Cor 1, 27)  e nEle se encontra as verdadeiras motivações (Jo 17, 18).
 A missão tem sua origem no coração amoroso de Deus, assim Ele envia seu Filho Jesus como a Palavra definitiva do Seu amor, a fim de que se cumprisse a missão que o Pai lhe confiara, de restaurar todas as coisas (At 3, 21). Assim, o Filho se torna nosso intercessor junto ao Pai e suplica sobre a humanidade o Espírito Santo, que age na vida do cristão capacitando-o a dar testemunho, restaurando-o do homem velho e o tornando um homem novo (Ef 4, 17-32).  Essa missão se estende no mundo por meio da Igreja ( Jo 20, 21), pois ela é povo escolhido que se faz santo por meio do batismo, chamado para a missão. “Ide, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei.”(Mt 28,19-20).
 Quando se fala em missão deve-se passar para o seu agir, “missionariar”, cumprindo o mandato de Cristo. Não basta compreender a urgência da missão, mas é preciso que se crie consciência de que é ação de cada batizado, a fim de que não reduza sua vivência de fé a uma pertença eclesial fria e monótona, mas se perceba membro que se coloca a serviço da evangelização e do testemunho do Evangelho.
“Missionariar” é sair como discípulo missionário, colocando-se a render os talentos, a criatividade, a sabedoria e a experiência para levar às outras pessoas a mensagem da ternura, da compaixão  e da misericórdia de Deus. Lembra-nos o papa Francisco: “A misericórdia encontra a sua manifestação mais alta e perfeita no Verbo encarnado. Ele revela o rosto do Pai, rico em misericórdia: ‘não somente fala dela e a explica com o uso de comparações e parábolas, mas sobretudo Ele próprio a encarna e a personifica’ (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 2). Aceitando e seguindo Jesus por meio do Evangelho e dos Sacramentos, com a ação do Espírito Santo, podemos tornar-nos misericordiosos como o nosso Pai celestial, aprendendo a amar como Ele nos ama e fazendo da nossa vida um dom gratuito, um sinal da sua bondade (cf. Bula Misericordiae Vultus, 3). A primeira comunidade que, no meio da humanidade, vive a misericórdia de Cristo é a Igreja: sempre sente sobre si o olhar d’Ele que a escolhe com amor misericordioso e, deste amor, ela deduz o estilo do seu mandato, vive dele e dá-o a conhecer aos povos num diálogo respeitoso por cada cultura e convicção religiosa.”

 Por isso, o “missionariar” da Igreja deve ser também “misericordiar”, ou seja,  que a misericórdia seja ação e imperativo eclesial e pessoal. “Misericordiar” deve ser conjugado em toda a vida do cristão a fim de que dando misericórdia se receba misericórdia, ser agente da misericórdia antes ser alvo da misericórdia de Deus. Ir como Igreja ao encontro dos homens e mulheres do tempo de hoje com suas feridas e dores e querer saná-las com uma presença de amor humano que revelem o amor divino de Deus numa ação constante de “misericordiar” para que o rosto de Deus revelado em Jesus seja apresentado com mais realce em seu atributo: ser misericordioso.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Dom Luciano, memória viva nesses 10 anos de falecimento

Geraldo Trindade



Após 10 anos da partida de Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, brota espontaneamente a memória viva e cativante da sua simplicidade, do seu amor aos pobres, das suas renúncias, da sua docilidade com a fraqueza do próximo, da sua firmeza e insatisfação na injustiça. Ele que foi desde sua morte chamado de santo, agora passa pelo resgate de suas virtudes evangélicas que devem motivar a vida cristã de cada homem e mulher no dia de hoje.
Dom Luciano nasceu no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 1930 foi o primeiro bispo jesuíta no Brasil. Era arcebispo de Mariana quando faleceu aos 75 anos de idade no dia 27 de agosto de 2006.  Exerceu funções de relevância nos diversos sínodos em Roma, foi secretário geral (de 1979 a 1986)  e presidente (1987 a 1994) da CNBB. Atuou na Pontifícia Comissão Justiça e Paz, do Conselho Episcopal Latino-Americano e da Comissão Episcopal para a Superação da Miséria e da Fome. Porém, nada disso encerra a sua vida e muito menos sua santidade.
A santidade é vida que brota da cotidianidade da vida, onde se tem que desapegar, se libertar e se desprender de certas coisas para possuir outras. Grandes e pequenas renúncias se entrelaçam nos santos e isso não poderia ser diferente com nosso Dom Luciano, a fim de que levasse de forma mais efetiva na sua vida um amor total, sem horas, sem reservas para com seus pobres, que são também os pobres de Deus. Seu amor a eles em circunstâncias que poucos de nós seríamos capazes de amar colocou e ainda coloca em xeque nosso amor próprio, nossos egoísmos e falsidades.
Talvez, após essa década, perguntemos se Dom Luciano buscou a santidade pela santidade. Acredito que não, pois buscou, sobretudo, servir ao outro “in nomine Iesu”, “em nome de Jesus” sem grandes pretensões a não ser levar um poço de alento e conforto aos mais sofridos e excluídos, falando do amor de Deus por meio dos seus gestos de amor, do seu sorriso manso, da sua voz firme e profética, mas carregada de imensa sutileza, da sua vida de oração, que fazia assimilar e viver que o Evangelho de Jesus, Deus conosco, é acima de tudo Boa Nova de alegria às pessoas, uma mensagem de que Deus ama estar com os pequenos e impulsiona a quem tem fé e proclamar sempre que nenhum dos filhos de Deus estão sozinhos.
“Antes de tudo, devemos ter bem presente que a santidade não é algo que nos propomos sozinhos, que nós obtemos com as nossas qualidades e capacidades. A santidade é um dom, é a dádiva que o Senhor Jesus nos oferece, quando nos toma consigo e nos reveste de Si mesmo, tornando-nos como Ele é. Na Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo afirma que ‘Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para a santificar’ (Ef 5, 25-26). Eis que, verdadeiramente, a santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo: é redescobrir-se em comunhão com Deus, na plenitude da sua vida e do seu amor. Então, compreende-se que a santidade não é uma prerrogativa só de alguns: é um dom oferecido a todos, sem excluir ninguém, e por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão” (Papa Francisco, audiência 19/11/2014).

Nosso arcebispo marianense resguarda para a posteridade essa bela face da Igreja, que a torna mais santa, mais atraente e mais pertencente a Seu Senhor Jesus. Podemos fazer memória dos casos, encontros e gestos do bispo dos pobres; o mais importante que brota disso é quando tudo isso confronta com nossa vida e prática cristã e nos sentimos envergonhados pelas nossa misérias e instantaneamente acende em nós o desejo de sermos mais de Deus, de nos deixar cativar e envolver por Ele em um entusiasmo que transborda no amor e nas renúncias pelo nosso próximo, como ele pediu no leito de morte: “Não se esqueçam dos meus pobres!”  Agora podemos dizer e repetir como ele: “Deus é bom”. E é muito bom ter essa certeza, como o é também pelo seu modelo, por sua vida que nos inspira e nos ajuda a conformar nossa vida à vida de Jesus.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O significado da renúncia


Geraldo Trindade – padre na Arquidiocese de Mariana

            No dia 11 de fevereiro de 2013 em um consistório convocado para decisão sobre três canonizações, Bento XVI anunciou, diante de um mundo que parou atônito, a sua renúncia ao Trono de Pedro. O que na época criou vários rumos, prós e contra, após esses três anos podem ser compreendidos a partir do que deve ser compreendido a partir do que deve ser compreendido, ou seja, à luz do mistério de Cristo, que resplandece na sua Igreja e de variados modos e maneiras conduz por meio do Espírito Santo a barca de Pedro por meio do mar revolto.

            Bento XVI sempre foi um acadêmico, um intelectual e um teólogo de grande envergadura. A Sé Petrina lhe tirou a força físisca e espiritual dificultando a condução dos trabalhos e do governo da Igreja. Mas, isso em nenhum momento pode ser encarado sem a dimensão humana e divina do ato porque o ato humano foi redimensionado por meio da oração ao mistério de amor, humildade e desapego que deve caracterizar a vida do cristão. Assim escolheu no recanto de um mosteiro passar os últimos dias de sua vida como sinal de que nas suas preces continuará a sua missão evangelizadora e de amor à Igreja.

            O gesto da renúncia de Bento mostrou claramente que a Igreja, barca de Pedro, não pertence ao papa, mas sim ao seu Senhor, Cristo Jesus. Com seus gestos singelos e firmes, Bento XVI exerceu com maestria seu trabalho apostólico e no último gesto do seu pontificado mostrou a importância do desapego às coisas terrenas. No seu último Ângelus  falou de forma alentadora: “Não abandono a Igreja, continuarei a servi-la com a mesma dedicação e amor”. E isso tem feito com generosidade e discrição!

            Além do legado espiritual e do seu gesto, o papa emérito exerceu seu magistério pontifício com frutuosidade. Deixou-nos três encíclicas: Deus caritas est (Deus é amor), Spes salvi (Salvo pela Esperança) e Caritas in veritate (Caridade em Verdade). Além de importantes livros de sua própria autoria, como a série “Jesus de Nazaré”, iniciada quando ainda era Cardeal. Bento XVI soube dar continuidade à “Primavera da Igreja”, à qual o Concílio Vaticano II exortou. E, por fim, deixou o “Ano da Fé” e a proposta de uma nova evangelização.  Lutou na defesa da vida e da dignidade humana buscando expandir a voz do antecessor,  São João Paulo II. Apresentou reflexões mostrando a dignidade de filhos de Deus além da  reafirmação dos valores morais cristãos, pelo firme não à “ditadura do relativismo” e constante diálogo com as demais religiões.

A renúncia de Bento XVI trouxe à Igreja o nosso Francisco. A certeza de continuidade é própria da nossa fé. O apóstolo Paulo vem nos lembrar: “um é o que planta, outro o que rega e outros os que colherão os frutos” (cf.1Cor 3,6-9).  O Papa Bento XVI plantou uma semente de esperança com a sua força de fé e compromisso com o Senhor Jesus, e juntos devemos regar a mesma semente a fim de que produza frutos para a honra de Jesus Cristo.  

Devemos ver  a história da Igreja com confiança em Deus e acima de tudo fé. Sabendo que são verdadeiras as palavras de Jesus sobre o Mistério, que é a Igreja, que brota do Seu coração aberto na Cruz, "As portas do inferno não prevalecerão!" (Mt 16, 18).Estas palavras permanecem inabaláveis e verdadeiras através dos séculos!


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dom Luciano, servo de Deus e da alegria

Geraldo Trindade
  
Dom Luciano Mendes de Almeida soube viver a alegria do evangelho como nos propõe o papa Francisco. Soube enxergar em todas as ocasiões e momentos a oportunidade de viver a alegria do evangelho, mas, sobretudo, de anunciar esta alegria aqueles que mais necessitavam: os mais necessitados, os mais carentes, os mais pobres, os mais desprezados pela sociedade. Dom Luciano soube viver a alegria do evangelho contornando sua vida pelos preceitos da caridade, do amor ao próximo, do serviço, da doação, da disposição em abrir mão de sua vontade para realizar a vontade de Deus. Soube ser sábio sendo simples. Servidor sem ser submisso. Alegre sem ser faceiro. Comprometido sem ser extremista. Pela palavra e pelo exemplo, dom Luciano deixou sua marca no chão mineiro da Arquidiocese de Mariana.
  Dom Luciano nasceu no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 1930. Viveu sua vida segundo seu lema episcopal  “In nomine Iesu” (Em nome de Jesus). Era arcebispo de Mariana quando faleceu aos 75 anos de idade.  Exerceu funções de relevância na Igreja, participou de diversos sínodos em Roma, foi secretário geral e presidente da CNBB, fez parte do Conselho Permanente desta entidade, atuou na Pontifícia Comissão Justiça e Paz, do Conselho Episcopal Latino-Americano.
Dom Luciano marcou o coração de inúmeras pessoas, marcou porque todos nós precisamos de exemplos e de bons exemplos. Precisamos ser radicais em nossas escolhas e ele viveu isso completamente em sua vida! Celebrar mais um ano do “dies natalis” (dia 27 de agosto, dia em que faleceu) deste servo bom e fiel de Deus é oportunidade de resgatar em nossa memória o grande bem que o arcebispo de Mariana realizou em favor da sociedade brasileira e da igreja católica.
Agora como seu processo de beatificação e canonização aberto, dom Luciano é servo de Deus, servo da caridade, do amor e do próximo, servo do outro totalmente Outro, servo do outro totalmente Irmão. Dom Luciano percorreu em todos os âmbitos, ambientes e realidades porque os santos são aqueles que não se acomodam às situações, mas os que enxergam além.
Dom Luciano é símbolo, ícone de uma caridade, de um cristianismo que cada dia mais precisamos resgatar em nossa vida. Os relatos de pessoa que conviveram com dom Luciano são marcados por um senso de humildade que transparecia em todas as suas ações, mas ao mesmo tempo de grandeza nos pequenos gestos do arcebispo. No olhar, no encontro com alguém e ver nele uma história, uma vida, um sonho. De em cada um perceber uma experiência que não pode ser perdida. Por esta singeleza da ação, por esta alteridade totalmente cristã, dom Luciano pode ser chamado o irmão do outro. Nem amigo, nem colega, nem conhecido, mas irmão, que sentiu a dor, que se aproximou, que viu, que sentiu e amou! O apóstolo do amor e da caridade mostra que só se é possível viver o cristianismo amando, só se pode ser cristão despojando-se de toda e qualquer vaidade!


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O legado da caridade de Dom Luciano Mendes

Geraldo Trindade

Após 8 anos de falecimento do arcebispo marianense Dom Luciano Mendes de Almeida, pode-se ter uma noção dos aspectos de sua vida que o torna apto a alcançar a honra do altares e passar a ser apresentado pela Igreja Católica como exemplo de santidade e modelo de fé em Jesus Cristo.
            A Congregação para a Causa dos Santos autorizou a abertura do processo para a canonização em nível diocesano, que vai ocorrer no dia 27 de agosto. O pedido enviado a Roma foi assinado por mais de 300 bispos brasileiros. Dessa forma, Dom Luciano passa a ser chamado Servo de Deus. Agora passa-se a analisar presumiveis milagres e ouve-se as testemunhas.
            Dom Luciano nascido no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 1930 foi o primeiro bispo jesuíta no Brasil. Viveu sua vida segundo seu lema “Em nome de Jesus”. Era arcebispo de Mariana quando faleceu aos 75 anos de idade.  Exerceu funções de relevância, tais como participação em diversos sínodos em Roma, secretário geral (de 1979 a 1986)  e presidente (1987 1 1994) da CNBB. Fez parte do Conselho Permanente desta entidade de 1987 até sua morte. Atuou na Pontifícia Comissão Justiça e Paz, do Conselho Episcopal Latino-Americano e da Comissão Episcopal para a Superação da Miséria e da Fome.
            Mas, o grande legado deste bispo é a caridade. Caridade que a própria identidade de Deus porque “Deus é amor” (1 Jo 4, 16).  O amor que retratava beste grande homem pela caridade era a forma que ele encontrava de no cotidiano da vida experimentar das realidades celestes. Dom Luciano era um servo dos humildes, dos pobres, dos simples e dos marginalizados. Já no leito do hospital pediu: “Nãos esqueçam dos meus pobres” e por isso é chamado por muitos como “o pastor dos esquecidos”. Ele fazia os pequenos gestos e palavras serem carregados de suma importância, capazes de gerar conforto, consolo e alívio. Quando foi eleito presidente da CNBB lhe perguntaram como seria sua atuação. Ele mais uma vez demonstrou sua caridade, que provém de um coração próximo ao de Deus, capaz de sentir e ver a partir dos mais sofredores: “Peço a Deus atuar na conversão dos homens do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo e se  a impaciência dos violentos, para que as estruturas de convivência humana correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus”. 
Sua presença discreta, e na maioria das vezes atrasada, era aguardada com ansiedade por todos, pois era “Dom Luciano que estava vindo”. Santos nos fazem esperar, pois não é qualquer dia que os encontramos vivos. Santos elevam nossos corações para Deus e os estende aos irmãos. Santos nos mostram como Deus age e cuida daqueles que são mal vistos e mal amados. Santos nos arranca de nosso comodismo e nos mostra uma lógica própria, pois é a lógica do amor misericordioso. Santos como Dom Luciano não são simplesmente homens, mas uma “imagem bonita de Deus” como uma vez Mons. Júlio Lancelotti descreveu o bispo marianense.

domingo, 27 de julho de 2014

Cristãos perseguidos, mas não vencidos!


Geraldo Trindade
  
A fé cristã sofre perseguições! Nada mais atual que a frase de São Tertuliano de que “o sangue dos mártires se torna sementes para novos cristãos”. Professar a fé cristã é ser hostilizado em muitas esferas da nossa sociedade; de modo escancarado ou velado, o comportamento se transforma se se declara crente, temente a Deus e discípulo do Mestre, que é Jesus Cristo.
            A fé guardada por homens, mulheres e crianças a ponto de darem suas vidas por causa do Evangelho é um grito que incomoda porque aponta para além dos modismos e das fugacidades da vida pós-moderna, onde o que importa são as aparências e a simples sensação de estar bem e ter uma “vida legal”. A fé preservada em meio às perseguições nos aponta para infinitude, para uma razão na vida, um querer de felicidade que só Cristo pode nos dar.
            Os cristãos no Iraque sofrem perseguição pelo estado islâmico de Mosul, é o que afirma o jornal francês Le Figaro. Os cristãos são obrigados a deixar sua região ou a pagarem altos impostos, têm suas casas marcadas com o N de Nazareno e assim sujeitos ao massacre e transformados em cidadãos de segunda categoria. No fundo, o estado islâmico quer obrigá-los a se converterem ou a serem mortos. Os cristãos no Iraque antes da invasão americana eram de 1 milhão, hoje são 400.000.
            Na Ucrânia, após a invasão russa muitos católicos tem seu futuro incerto, pois a igreja poderá ser banida do território. Padres são raptados e alguns desaparecem sem nenhuma explicação. Alguns fiéis chegam a ser espancados por oficiais russos e têm suas propriedades confiscadas. É a lógica do medo para que abandonem sua fé!
            Na China o Partido Comunista Chinês silencia a Igreja Católica que é obrigada a viver na clandestinidade. São em média 12 a 15 milhões de católicos em um país de 1,4 bilhão de habitantes. Os católicos são obrigados muitas vezes a serem membros da Associação Católica Patriótica Chinesa, que é controlada pelo governo e não está em comunhão com o papa.  Alguns bispos católicos vivem encarcerados durante décadas por não abandonar a fé.
Na Mongólia, um sacerdote e uma religiosa foram mortos por cuidarem de crianças e idosos pobres. Na Síria, os conflitos têm gerado intolerância religiosa contra os cristãos num ambiente em que 90% da população é muçulmana. De acordo com estimativas divulgadas pelo Associated Press, cerca de 1800 cristãos foram mortos na Nigéria em ataques terroristas planejados por radicais islâmicos desde 2007. Na Coréia do Norte, 50 a 70 mil cristãos sofrem nos campos de concentração em trabalhos forçados. Na Somália se um ex-muçulmano é descoberto logo é condenado imediatamente à morte. No Afeganistão os cristãos são considerados inimigos do estado. Nestes e em muitos outros lugares seguir a Cristo é estar correndo risco de morrer e de ser perseguido.
No Brasil os católicos também acabam passando algumas situações sofridas, tendo suas igrejas invadidas, seus objetos de cultos ridicularizados e imagens depredadas. Isso aconteceu no Rio de Janeiro (RJ), Montes Claros (MG), Sacramento (MG) Igarapava (SP), Erechim (RS)...
O papa Francisco afirmou que há mais cristãos perseguidos atualmente que nos primeiros tempos da Igreja. Existem lugares em que não se pode ter uma Bíblia, ensinar o catecismo ou mesmo levar um Crucifixo. A cada cinco minutos um cristão é morto, segundo algumas fontes. Além do mais a perseguição não é somente física, o martírio de sangue. Outras formas de perseguição se espalham e marcam profundamente a vida das pessoas. Hoje há o martírio da ridicularização no trabalho, na universidade nos ambientes sociais...
Estes exemplos demonstram como ainda há corações, estruturas sociais e regimes políticos fechados ao Evangelho. É preciso permanecermos vigilantes para que a profissão da fé cristã não se torne um crime sujeito a retaliações. A nossa vida deve-nos falar sobretudo de Cristo e de Cristo crucificado e ressuscitado como centro da história e da nossa vida. A cruz de Cristo ocupa sempre um lugar central na vida da Igreja e tem que ocupar também em nossa vida pessoal. Na história da Igreja não faltará jamais paixão e perseguição, mas a partir delas e pelo testemunho de guardar e dar testemunho dela muitos crerão. Se aceitamos a cruz ela se converte em benção. “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Incessantemente e por toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (2 Cor 4, 8-10).

domingo, 3 de novembro de 2013

E, agora, jovem?!

Geraldo Trindade




            O ano de 2013 foi singular na vida da Igreja Católica no Brasil, pela escolha da juventude como sua prioridade. A CNBB escolheu como tema da Campanha da Fraternidade a juventude, o Rio de Janeiro sediou a Jornada Mundial da Juventude.  Transpareceu que a Igreja Católica quer respirar com os jovens, caminhar com eles, sonhar seus sonhos, lutar suas lutas...
            A peregrinação da cruz e do ícone de Nossa Senhora pelas comunidades em nosso país favoreceu com que a presença da Igreja, que tem com missão comunicar Cristo, estivesse junto às mais variadas realidades: educacionais, de sofrimento, exclusão, de trabalho, de oração, caminhada, reflexão, celebrações, adoração...
            A JMJ marcou vivamente a memória de todos os que lá estiveram ou acompanharam pelos meios de comunicação. Em torno do sucessor de Pedro, Francisco, que tem como missão confirmar na fé, os jovens puderam renovar seu compromisso com a humanidade e com Jesus Cristo, atendendo o Seu convite: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações”.
            Muitos bons propósitos, planos, projetos e iniciativas surgiram a partir das vivências desses momentos e de inúmeros outros. Passado o tempo de empolgação inicial, é hora de verificarmos as chamas que ainda fumegam, de planos e iniciativas, que não estão apenas ancorados em nós mesmos, mas no fundamento, que é Cristo e no desejo de segui-Lo. Porém, a relação do jovem com a Igreja passa, necessariamente, pelos ministros sagrados, consagrados, passa pelas nossas paróquias, pastorais e movimentos. Será que todos esses agentes têm também se ocupado com os jovens? Estão eles comunicando e proporcionando uma experiência de Deus? A juventude tem sido prioridade pastoral em vários planos, mas tem se constituído em ação de oportunidade, escuta, participação dos jovens como força ativa em nossas comunidades?
            Não pode ser permitido aos jovens a apatia diante da fé, do projeto de Jesus Cristo, da vida social do nosso país e das realidades mais desafiadoras e excludentes! É preciso que os jovens saibam viver, buscando os mais altos valores, os projetos mais audaciosos, os sonhos mais preciosos... Viver é pouco se se não coloca razão no dia-a-dia da vida, dando sentido a partir de uma meta de vida. O que muda a história é o que, antes, muda o coração humano. Nada melhor do que deixarmos enquanto batizados, que seja Cristo capaz de nos encantar com sua vida, seus gestos e posturas. Não podemos considerar Jesus totalmente conhecido e apreendido por nossa razão e sentimentos, é sempre uma novidade que deve nos questionar e nos encantar.

            “ Ide, sem medo, para servir. Seguindo estas três palavras, vocês experimentarão que quem evangeliza é evangelizado, quem transmite a alegria da fé, recebe mais alegria. Queridos jovens, regressando às suas casas, não tenham medo de ser generosos com Cristo, de testemunhar o seu Evangelho.  Deus envia o profeta Jeremias, lhe dá o poder de ‘extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar’ (Jr 1,10). E assim é também para vocês. Levar o Evangelho é levar a força de Deus, para extirpar e destruir o mal e a violência; para devastar e derrubar as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio; para construir um mundo novo.” (Papa Francisco).

domingo, 18 de agosto de 2013

Dom Luciano Mendes: Dom e Luz



Geraldo Trindade 

            Há 7 anos, o Brasil se despedia de um homem, de um bispo, de um santo. No dia 27 de agosto de 2006 partia e deixava-nos dom Luciano: “Luz e Dom de Deus”. A luz e o dom presente em dom Luciano não passavam despercebidos, tocavam a alma e o coração de cada um que o encontrava por mais ligeiros e sutis tais encontros: era o doce olhar, o meigo toque, a singeleza da postura e o desarmamento de suas palavras.
            Esta presença reconfortadora encontramos também no papa Francisco. Em muito eles se assemelham; não simplesmente por serem jesuítas. Na ocasião de sua eleição para a cátedra de Pedro, o cardeal Bergólio, agora papa Francisco, escutou ao pé do ouvido as palavras do cardeal Cláudio Hummes: “Não esqueça dos pobres!” Intuitivamente, veio à minha mente a narração do fato de que dom Luciano antes de morrer disse ao seu irmão Luiz Mendes de Almeida: “Não esqueça dos meus pobres!”
            Os escolhidos de dom Luciano foram os mesmos que Jesus escolheu, os pobres. Eles encontraram no coração do bispo marianense receptividade, mais do que isso, encontraram um coração disposto que escolheu a simplicidade, a generosidade e a proximidade como o cartão visita. Além do mais, a dom Luciano era essencial servir à comunidade, sobretudo os mais necessitados, os que estão à margem da sociedade e de nossa atenção. Para ele amar não é uma simples doutrina, é um estilo e uma prática de vida. De fato, “a Luz e o Dom do Brasil” soube levar ao cumprimento a Lei do Senhor, crendo, ensinando e praticado o que professava e ensinava.
            Eis o grande legado de dom Luciano: seu amor aos humildes e pequenos por meio de sua atitude serviçal. Para quem fez da frase: “Em que posso ajudar?” seu lema de vida, não é de se espantar que não medisse esforços para viver
Foto:Jornalista Carlos Pacelli/ Arquivo
radicalmente o seguimento a Cristo. Essa escolha fundamental por Cristo se expressa bem no documento de Santo Domingo, em especial na oração que levou em seu bojo os dedos e as mãos do arcebispo. Expressa-se na seguinte forma: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, Bom Pastor e irmão nosso, nossa única opção é por Ti.” A radicalidade de sua vida encontra em Jesus Cristo seu fundamento, seu amor radical pelo outro encontra sua fonte em Jesus Cristo, sua caridade fraterna encontra em Jesus Cristo o exemplo!
            Dom Luciano soube como ninguém encarnar o Evangelho. Aliás, os santos se diferenciam exatamente por serem o Evangelho vivo, capazes de nos interpelarem na prática da nossa vida e do nosso seguimento a Jesus Cristo. Os santos irradiam sobre a terra um teor de vida mais humana, graças a eles a humanidade se torna mais humana. Eles são capazes de alimentar o mundo com frutos espirituais e infundir o espírito do Evangelho.
            No dia 27 de agosto, a Arquidiocese de Mariana, na qual dom Luciano foi seu 4º arcebispo, presta sua homenagem por meio da Comenda dom Luciano Mendes de Almeida do Mérito Educacional e Responsabilidade Social. Neste dia, na catedral metropolitana haverá celebração eucarística às 18h30. Logo após, haverá a outorga da comenda aos homenageados: mons. Lázaro de Assis Pinto, mons. Pedro Terra Filho, padre Marcelo Moreira Santiago, padre Márcio Antônio de Paiva, prof. dr. Emilién Vilas Boas Reis e Arsenal da Esperança dom Luciano Mendes de Almeida.

            Esta homenagem prestada ao nosso “Dom e Luz” vai para além da recordação saudosa do homem e do legado do arcebispo. É o tempo da graça de Deus, o kairós, para reavivar em nós, por meio do seu testemunho profundo e radical com o bem do próximo, o comprometimento; não opcional, mas inerente à vida cristã, o cuidado com o próximo. Resta-nos o questionamento à luz da Palavra de Deus: “de quem me faço próximo?” Do pobre, do excluído, do marginalizado, do violentado, do malvisto?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pós JMJ: bote fé, bote amor, bote esperança!

Geraldo Trindade

Após a tão aguardada Jornada Mundial da Juventude no Rio trazemos no coração um novo ardor e uma fé mais viva e disposta a dar testemunho contra a corrente, aliás tão ressaltado pelo papa Francisco. Foram dias de muitas experiências ricas: a unidade na mesma fé, as orações em comuns, a Palavra de Deus refletida, a Eucaristia celebrada, a alegria de ser fiel discípulo do Senhor, que traz em si o desejo de partilhá-la com os demais, o respeito, a paz... A experiência de peregrinar, caminhar, seguir confiando não na mochila que os jovens traziam em suas costas, mas simplesmente confiando no Senhor. “Confia no Senhor e faze o bem, habita na terra e vive tranquilo” (Sl 37, 3).
            Sem sombras de dúvida a JMJ marcou positivamente a Igreja no Brasil e a evangelização da juventude. Os milhões de jovens no Rio e acompanhando pelos meios de comunicação se transformou em um dos mais belos testemunhos de fé que o mundo viu. De fato, como o próprio papa lembrou: são os jovens seus herois porque expressam o rosto jovem de Cristo. Os jovens exortados pelo Papa Francisco foram convidados a acrescentarem três elementos em suas vidas: fé, amor e esperança.
            É preciso que a cruz plantada no coração de cada católico o faça ser campo aberto, onde haja receptividade para Cristo e sua Palavra. É preciso que se deixe envolver-se e dar-se por Jesus Cristo. O jovem é marcado por grandes ideais, que apostam alto, que querem escolhas definitivas que garantam sentido às suas vidas. E é exatamente estes grandes desejos que encontram em Cristo e em sua Igreja a resposta necessária.
De fato, podemos ter a certeza que a Nova Evangelização empreendida a partir do Beato João Paulo II tem nas jornadas um dos momentos altos, pois elas despertam para a sensibilidade da fé, tira-nos do comodismo para nos lançarmos ao Mistério, que é Deus, ao outro, que é meu irmão.
As jornadas são o sinal de que a Igreja está próxima, ama, cuida e acaricia os seus fieis. Em um tempo tão marcado pela violência, pelo individualismo, consumismo, corrupção, esvaziamento, depressão; os jovens gritaram no silêncio orante de Copacabana que vale a pena trazer no peito a cruz de Cristo, que vale a pena ter fé e experimentar a proximidade com Cristo. É possível ter fé e dialogar com o mundo. São jovens no mundo, que contra a corrente, na mais variadas vezes, afirmam seu amor a Deus sem perder a alegria e a ternura, tão bem expressados nos cantos, nos sorrisos, nos abraços e nos apertos de mão. Aliás, tais gestos foram a marca da passagem do papa Francisco pelo Brasil – fé e esperança de que vale a pena crer. “Partilhar a experiência da fé, testemunhar a fé, anunciar o Evangelho é o mandato que o Senhor confia a toda a Igreja, também a você. É uma ordem, sim; mas não nasce da vontade de domínio, da vontade de poder. Nasce da força do amor, do fato que Jesus foi quem veio primeiro para junto de nós e não nos deu somente um pouco de Si, mas se deu por inteiro, Ele deu a sua vida para nos salvar e mostrar o amor e a misericórdia de Deus. Jesus não nos trata como escravos, mas como pessoas livres, como amigos, como irmãos; e não somente nos envia, mas nos acompanha, está sempre junto de nós nesta missão de amor” (Papa Francisco).

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que o Papa Francisco vem fazer no Brasil?




Geraldo Trindade


            Por que o Papa Francisco vem ao Brasil? O que este homem tem a nos falar?
            Ele vinrá ao país em 2013 para participar da 18ª Jornada Mundial da Juventude.
            Não é com pouco pesar que vemos o egoísmo imperando, as famílias se desfragmentando, o ódio entre segmentos sociais se acirrando, a ausência de amor, de alegria, de esperança se instalando. O trabalho digno é privilégio de alguns, o desemprego ainda marca profundamente nossa realidade, as drogas invadem os lares, a violência ceifa vidas, a depressão atinge milhares de homens e mulheres...
            Apesar de tudo isso, nada impede os jovens de sonharem. É próprio deles desejarem algo mais do que o cotidiano da vida. O jovem é o ser do novo, da relação interpessoal vivida na verdade e na solidariedade, da amizade autêntica, do verdadeiro amor, do futuro sereno e feliz... Perguntam-se qual o sentido da vida, buscam porto seguro para reabastecer a força e zarpar em busca de seus ímpetos mais sublimes e generosos.
            Vivendo nesta realidade, a figura do papa representa que há uma alternativa onde se possa encontrar, na vastidão e na beleza da vida, uma segurança e um sentido. Francisco vem para reafirmar que tudo o mais é insuficiente quando se descobre que o nosso desejo da vida é Aquele que nos criou. Ele deixou sua marca indelével em nós, por isso aspiramos o amor, a alegria e a paz.
            A vinda do papa nos deixará um imenso legado espiritual. Será uma oportunidade ímpar de se ver o rosto da juventude católica, de renovar e solidificar a todos na fé e no amor à Igreja. É a certeza de que vale a pena acreditar em Deus, de dar a sua vida em favor dos outros.
            Trazemos dentro de cada um de nós inúmeras questões e dúvidas. Procuramos resposta e não pararemos de buscá-las, mas trazemos a certeza de que só será possível encontrá-las por meio de Jesus Cristo, Aquele a quem o papa, figura de Pedro, insiste que confiemos. “O Rei que seguimos e nos acompanha, é muito especial: é um Rei que ama até à cruz e nos ensina a servir, a amar. E vós não tendes vergonha da sua Cruz; antes, abraçai-a, porque compreendestes que é no dom de si,  no sair de si mesmo, que se alcança a verdadeira alegria e que com o amor de Deus Ele venceu o mal. Vós levais a Cruz peregrina por todos os continentes, pelas estradas do mundo. Levai-la, correspondendo ao convite de Jesus: ‘Ide e fazei discípulos entre as nações’ (cf. Mt 28, 19), que é o tema da Jornada da Juventude deste ano.” (Papa Francisco)
            Rumo à Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, certos de que os jovens respondem com prontidão quando é proposto com fé com sinceridade e verdade o encontro com Cristo, fundamento da nossa fé. Incentiva Francisco aos jovens: “devem dizer ao mundo: é bom seguir Jesus; é bom andar com Jesus; é boa a mensagem de Jesus; é bom sair de nós mesmos para levar Jesus às periferias do mundo e da existência. Três palavras: alegria, cruz, jovens.


quarta-feira, 13 de março de 2013

O novo papa, Francisco, tem muito a nos ensinar!



Geraldo Trindade




Sob o olhar e expectativa de todo o mundo, católicos e não católicos, aguardaram ansiosos o início e o fim do conclave. Quem se tornaria o líder e pastor da milenar Igreja Católica? Quem sucederia o apóstolo Pedro na cátedra romana, após o carismático João Paulo II e o intelectual Bento XVI? Quem guiaria a barca da Igreja em meio aos reveses e exigências do século 21 e da pós-modernidade?
            Não poucas foram as especulações em relação ao futuro pontífice: conservador, liberal, de centro, com experiência pastoral, forte acento intelectual, boa relação com o mundo, mais ligado à cúria  romana ou disposto a provocar mudanças...

            Porém, tudo isso se torna secundário, pois o papa tem como grande missão confirmar na fé; ou seja, ser o luminar e o porto seguro da fé, da Tradição e do Magistério à luz da Palavra de Deus; que guia os que creem rumo a Jesus Cristo.
            Inesperadamente o Habemum Papam ecoou da sacada de São Pedro ao mundo, dando ao conhecimento que o colégio dos cardeais confiou as sandálias e o anel do pescador a um homem, Cardeal Jorge Mário Bergoglio. Suas primeiras palavras dirigidas ao mundo demonstra que este apostolado petrino supera em muito a pequenez humana, que seu sujeita à vontade de Deus e nela se confia. Disse que os cardeais foram buscar um papa no fim do mundo e pediu orações para o papa emérito Bento XVI e por ele, que assume o governo da diocese de Roma e do mundo. “Agora começamos este caminho juntos, um caminho da caridade das igrejas, de fraternidade, amor e confiança entre nós”, disse o novo papa.

Nascido em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, na Argentina, Jorge Mario Bergoglio formou-se engenheiro químico, mas escolheu posteriormente o sacerdócio, entrando para o seminário em Villa Devoto. Em março de 1958, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus (jesuítas). Em 1963, ele estudou humanidades no Chile, retornando posteriormente a Buenos Aires. Entre 1964 de 1965, Bergoglio foi professor de literatura e psicologia no Colégio Imaculada Conceição de Santa Fé e, em 1966, ensinou as mesmas matérias em um colégio de Buenos Aires. De 1967 a 1970, estudou teologia. Em 13 de dezembro de 1969, foi ordenado sacerdote.
     O novo papa passa a assumir agora o nome de Francisco. O nome remete a diversas figuras que tem um lugar especial na vida da Igreja Católica. Um dos nomes mais proeminentes é de São Francisco, o pobre de Assis, que reformou a Igreja Católica a partir do serviço aos pobres e o amor a Jesus Cristo por meio da humildade e do resgate da beleza do Evangelho. São Francisco de Sales, homem de espiritualidade e de uma vida voltada para Cristo com simplicidade, sem buscar coisas grandes, com paciência e sem heroísmos. Outro santo importante é São Francisco Xavier, pioneiro e co-fundador dos jesuítas, mesma congregação do novo papa. Este santo se destacou em sua atividade missionária na Índia e Japão.

     O até antão Cardeal Bergoglio esteve no Brasil em 2007 para a Conferência do episcopado latino-americano. Aqui, unidos com seus irmãos bispos, trabalhou para a confeccção do Documento de Aparecida, que convida todos os católicos a tornarem-se discípulos-missionários. Por isso a eleição de Francisco I revigora a Igreja na sua missão de “fazer discípulos entre todas as nações”.  Sua Santidade traz para o ministério petrino a experiência evangelizadora da Igreja latino-americana e caribenha.
Com toda a Igreja e o mundo entregamos e confiamos a Deus a vida deste grande colaborador da obra de Cristo no mundo.

domingo, 10 de março de 2013

Jovem bem orientado não é manipulado!


Geraldo Trindade



            A Campanha da Fraternidade neste ano coloca a sociedade, o governo e a Igreja em sinal vermelho. O que estas três esferas têm oferecido aos jovens?
            Os jovens passam por uma crise de sentido, de certezas. O que tem sido feito para orientá-los?
            Cada vez mais se estabelece relações entre as pessoas a partir do interesse, da indiferença e do utilitarismo. O que tem sido feito para educar as novas gerações de gratuidade?
            A publicidade e o mercado criam realidades ilusórias, necessidades que provocam o descontrole do consumismo em crianças, jovens e adultos. O que se tem feito para criar a consciência de um consumo sadio e consciente?
            O avanço tecnológico vai garantido maior acesso a internet, aos meios de comunicação e redes sociais. O que se tem dialogado com as crianças, adolescentes e jovens sobre o uso correto desses meios?
            Infelizmente, aos poucos vai se perdendo os parâmetros do que é bom e mal, correto e errado.
            Muitos jovens perdem o sentido da vida, estão ausentes a dimensão do futuro e da esperança. Assustadoramente, cada vez mais jovens se perdem no álcool, nas drogas e no extermínio de sua própria vida. São eles também, os jovens, vítimas de assassinatos.
            O limite, o “não” parece inexistir, pois é tomado como limitação da liberdade e por isso mesmo corre-se o risco com a formação de gerações que desconhecem  limites e o respeito aos outros.
            Não basta a indicação dos riscos pelos quais enfrentam a juventude. Jovem bem orientado não é manipulado, pois é capaz de assumir suas decisões com determinação. É capaz de se colocar diante do mundo, de suas solicitações com uma nova postura: não se deixar levar somente pelo que está na moda e na “boca da galera”. Sabe utilizar as redes sociais com discernimento e limite. Vê na família o porto seguro, o lugar do aconchego, do carinho e da formação de valores.
            O jovem sabe que sua vida está interligada ao destino das outras pessoas e ao futuro da humanidade. Sabe que a fé em Deus e a sua participação na Igreja são tesouros preciosos, do qual não se pode abrir mão.
            “A Igreja olha para os jovens com esperança”. (Bento XVI). Além de serem esperança, os jovens são heróis dos tempos pós-modernos; capazes de superarem as injustiças e corrupção, de serem fermentos em meio aos idealismos, de defenderem o bem comum, de promoverem o diálogo e o encontro, de serem autênticos e participativos, de preservarem e cultivarem a fé, o amor a Deus e ao próximo... Cada dia mais os jovens são convocados a serem protagonistas de uma sociedade mais justa, fraterna, inspirada no Evangelho: a CIVILIZAÇÃO DO AMOR. Fica o conselho de um pai espiritual aos jovens: “Permiti que o mistério de Cristo ilumine toda a vossa pessoa! Então, podereis levar aos vários ambientes aquela novidade que pode mudar relacionamentos, as instituições e as estruturas, para edificar um mundo mais justo e solidário, animado pela busca do bem comum. Não cedais a lógicas individualistas e egoístas! Que vos conforte o testemunho de muitos jovens que alcançaram a meta da santidade.” (Bento XVI)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Bento XVI: o papa e servo na vinha do Senhor


Geraldo Trindade 




            Agora com a Sé de Roma vacante, a Igreja Católica experimenta, após anos, a sensação de ter um papa emérito enquanto se espera um conclave para a eleição de Sumo Pontíficie. Para meu espanto a grande mídia cobriu com avidez esta troca na suprema hierarquia da Igreja Católica. Primeiro, pode ter sido por interesse, por garantia de ibope; mas também não descarto que, por mais que se tente apagar, o papa representar valores e posturas morais porque ele não age, não se pronuncia e não se porta ao sabor das ondas, mas a partir, invariavelmente, do Evangelho. O título que é concedido ao papa de vigário de Cristo simboliza muito bem que na terra ele faz a ponte com o sagrado, com o divino. Viver e pautar-se pelo Evangelho é um dos grandes convites que um papa faz a toda a humanidade e isso sempre chamará a atenção do mundo.
            Bento XVI esteve à frente da Igreja foi um período de drásticas mudanças no mundo e no cristianismo. Ele se esforçou para tornar a fé mais clara e inteligível para que assim fosse abraçada com certeza e convicção vital. Lutou para que os esforços burocráticos, pastorais e evangelizadores da Igreja não perdessem o seu foco – Cristo. Sempre convidou todos os católicos a terem Jesus como centro da vida cristã. Quando se perde o sentido referencial, que é Cristo, a Igreja corre o risco de tornar-se tudo, menos o corpo de Cristo, que traduz no mundo os valores pregados e vividos pelo Verbo encarnado.
            No dia 19 de abril de 2005, o cardeal Ratzinger aparecia na sacada de São Pedro como novo papa sob o nome de Bento XVI e dirigindo à multidão reunida disse: “Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes.” Colocou-se humildemente como servo do Senhor. Muitas vezes o servo é dispensável à gosto do Senhor. Agora, surpreende-nos com a sua despedida serena, de fato, como um servo que fez o que deveria fazer e que não fica a aguardar a recompensa de seu Senhor. Na noite do dia 28 de fevereiro se despede do mais alto posto da Igreja Católica com as singelas palavras, porém não menos profundas de que “sou simplesmente um peregrino que inicia a última etapa de sua peregrinação nesta terra. Mas gostaria ainda com o meu coração, com o meu amor, com a minha oração, com a minha reflexão, com todas as minhas forças interiores, de trabalhar em prol do bem comum e do bem da Igreja e da humanidade. E me sinto muito apoiado pela simpatia de vocês. Sigamos adiante com o Senhor para o bem da Igreja e do mundo.”
            O cardeal Ratzinger viveu o pontificado não aprisionado a moldes ou pressão, mas soube interpretá-lo e dá-lo uma nova configuração. Se ele não tinha o trejeito com o público como seu antecessor, mas teve e tem a capacidade de refletir com profundidade e originalidade, ao mesmo tempo, entende que o seu papel como papa não se restringe a grupos seletos, mas como ele mesmo disse em sua última audiência: “O Papa nunca está sozinho, pude experimentá-lo agora mais uma vez e duma maneira tão grande que toca o coração. O Papa pertence a todos, e muitíssimas pessoas se sentem estreitamente unidas a ele.”
            Agora, o papa emérito descansa, pois completara suas atividades às 20 horas  do dia 28 de fevereiro, mesma hora em que encerrava seu expediente de trabalho como um servo que se coloca a disposição de seu amo; assim, mais uma vez Bento XVI dá o exemplo de levar a bom termo a sua missão, pois a Igreja não é dos homens, mas de Cristo. Resta a cada batizado abraçar Cristo e por consequência a missão com o intuito de deixar com que a fé entranhe até as profundezas da existência humana.
“Deus guia a sua Igreja; sempre a sustenta mesmo e sobretudo nos momentos difíceis. Nunca percamos esta visão de fé, que é a única visão verdadeira do caminho da Igreja e do mundo.” (Bento XVI, papa emérito)