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sábado, 5 de março de 2016

Qual deve ser a atitude de um cristão?

Geraldo Trindade 

            Muito se fala, discute e escreve sobre a situação brasileira. Na verdade, sobre o caos que impera sobre todos nós e um precipício se apresenta à nossa frente!
            Vivemos ou pior, experimentamos na pele a catástrofe econômica, onde cada dia mais as famílias perdem seu poder aquisitivo. Além disso, temos uma crise política onde os representantes, que deveriam liderar e trabalhar para o bem comum se esbaldam em negociatas e puro desprezo pelo bem público. O que vemos é uma maquina público-administrativa que é incapaz de garantir bom serviço nos setores da saúde, educação, segurança, transporte públicos, água e energia elétrica. Não se pode culpabilizar a falta de um orçamento que garanta melhorias no serviço público porque a sensação que se tem é que  os recursos não são escassos quando se trata de transferências do dinheiro público para as contas pessoais, gerando a enojada corrupção, tão conhecida e praticada descaradamente à revelia do bem do povo.
            Parece que os valores estão invertidos, que nada mais caminha como deveria caminhar. Vemos os bons estagnados enquanto os desonestos buscam seus “jeitinhos” para tirar vantagens que envergonham qualquer pessoa de caráter!
            Ainda há muitos problemas que não têm acesso à educação de qualidade, recebem baixos salários e têm dificuldade em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como educação, transporte público e saneamento básico. As drogas cada dia mais ingressam nos variados ambientes e disseminam um rastro de morte e violência pelas cidades e famílias.
           Qual deve ser a atitude de um cristão? De que modo se pode influenciar em um mundo tão cheio de mal, corrupção e violência? 
            Jesus usa duas imagens: sal e luz (Mt 5, 13-16).
            O sal é que dá sabor, dá tempero àquilo que está insosso; evita que se perca o alimento, além do sal estar associado à pureza. Dessa forma, o cristão deve dar novo sabor ao ambiente que lhe cerca, evitando que o mal progrida e avance na vida e no coração. Não se deixando apodrecer pelas consequências do pecado. Jesus em outra passagem nos alerta: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).
            A luz é um símbolo muito especial nas Sagradas Escrituras. “Deus é luz e nele não há treva alguma” (1 Jo 1, 5). “O povo que andava em trevas viu grande luz” (Is 9, 1). Jesus se referia a ele como luz: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (Jo 8, 12). Os seus discípulos, os que permanecem junto a Ele também são luz. Por meio deles a luz de Cristo se manifesta em cada rosto, nas palavras, nas ações, e ilumina o mundo. A luz elimina as trevas como também as boas obras eliminam cada dia mais o mal da nossa vida, ou seja, no testemunho diário deve-se proclamar o modo de Jesus agir. Dessa forma, as boas obras praticadas não devem chamar atenção para quem a pratica, mas para Deus.
            A missão do cristão é dupla no mundo: como sal, para interromper, ou pelo menos retardar este processo da corrupção moral e espiritual, e como luz, para desfazer as trevas. Recorda-nos o papa Francisco: “Não se pode entender um cristão que não seja testemunha. Nós não somos uma ‘religião’ de ideias, de pura teologia, de coisas belas, de mandamentos. Não, nós somos um povo que segue Jesus Cristo e oferece testemunho”.




domingo, 27 de julho de 2014

Cristãos perseguidos, mas não vencidos!


Geraldo Trindade
  
A fé cristã sofre perseguições! Nada mais atual que a frase de São Tertuliano de que “o sangue dos mártires se torna sementes para novos cristãos”. Professar a fé cristã é ser hostilizado em muitas esferas da nossa sociedade; de modo escancarado ou velado, o comportamento se transforma se se declara crente, temente a Deus e discípulo do Mestre, que é Jesus Cristo.
            A fé guardada por homens, mulheres e crianças a ponto de darem suas vidas por causa do Evangelho é um grito que incomoda porque aponta para além dos modismos e das fugacidades da vida pós-moderna, onde o que importa são as aparências e a simples sensação de estar bem e ter uma “vida legal”. A fé preservada em meio às perseguições nos aponta para infinitude, para uma razão na vida, um querer de felicidade que só Cristo pode nos dar.
            Os cristãos no Iraque sofrem perseguição pelo estado islâmico de Mosul, é o que afirma o jornal francês Le Figaro. Os cristãos são obrigados a deixar sua região ou a pagarem altos impostos, têm suas casas marcadas com o N de Nazareno e assim sujeitos ao massacre e transformados em cidadãos de segunda categoria. No fundo, o estado islâmico quer obrigá-los a se converterem ou a serem mortos. Os cristãos no Iraque antes da invasão americana eram de 1 milhão, hoje são 400.000.
            Na Ucrânia, após a invasão russa muitos católicos tem seu futuro incerto, pois a igreja poderá ser banida do território. Padres são raptados e alguns desaparecem sem nenhuma explicação. Alguns fiéis chegam a ser espancados por oficiais russos e têm suas propriedades confiscadas. É a lógica do medo para que abandonem sua fé!
            Na China o Partido Comunista Chinês silencia a Igreja Católica que é obrigada a viver na clandestinidade. São em média 12 a 15 milhões de católicos em um país de 1,4 bilhão de habitantes. Os católicos são obrigados muitas vezes a serem membros da Associação Católica Patriótica Chinesa, que é controlada pelo governo e não está em comunhão com o papa.  Alguns bispos católicos vivem encarcerados durante décadas por não abandonar a fé.
Na Mongólia, um sacerdote e uma religiosa foram mortos por cuidarem de crianças e idosos pobres. Na Síria, os conflitos têm gerado intolerância religiosa contra os cristãos num ambiente em que 90% da população é muçulmana. De acordo com estimativas divulgadas pelo Associated Press, cerca de 1800 cristãos foram mortos na Nigéria em ataques terroristas planejados por radicais islâmicos desde 2007. Na Coréia do Norte, 50 a 70 mil cristãos sofrem nos campos de concentração em trabalhos forçados. Na Somália se um ex-muçulmano é descoberto logo é condenado imediatamente à morte. No Afeganistão os cristãos são considerados inimigos do estado. Nestes e em muitos outros lugares seguir a Cristo é estar correndo risco de morrer e de ser perseguido.
No Brasil os católicos também acabam passando algumas situações sofridas, tendo suas igrejas invadidas, seus objetos de cultos ridicularizados e imagens depredadas. Isso aconteceu no Rio de Janeiro (RJ), Montes Claros (MG), Sacramento (MG) Igarapava (SP), Erechim (RS)...
O papa Francisco afirmou que há mais cristãos perseguidos atualmente que nos primeiros tempos da Igreja. Existem lugares em que não se pode ter uma Bíblia, ensinar o catecismo ou mesmo levar um Crucifixo. A cada cinco minutos um cristão é morto, segundo algumas fontes. Além do mais a perseguição não é somente física, o martírio de sangue. Outras formas de perseguição se espalham e marcam profundamente a vida das pessoas. Hoje há o martírio da ridicularização no trabalho, na universidade nos ambientes sociais...
Estes exemplos demonstram como ainda há corações, estruturas sociais e regimes políticos fechados ao Evangelho. É preciso permanecermos vigilantes para que a profissão da fé cristã não se torne um crime sujeito a retaliações. A nossa vida deve-nos falar sobretudo de Cristo e de Cristo crucificado e ressuscitado como centro da história e da nossa vida. A cruz de Cristo ocupa sempre um lugar central na vida da Igreja e tem que ocupar também em nossa vida pessoal. Na história da Igreja não faltará jamais paixão e perseguição, mas a partir delas e pelo testemunho de guardar e dar testemunho dela muitos crerão. Se aceitamos a cruz ela se converte em benção. “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Incessantemente e por toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (2 Cor 4, 8-10).

domingo, 1 de setembro de 2013

Conflito na Síria: “O uso da violência nunca gera paz”






Geraldo Trindade

Mais uma vez o mundo se encontra sobre o alarme de uma guerra com consequências inimagináveis! Mais uma vez a insanidade da guerra se sobrepõe ao valor do diálogo! Mais uma vez o apego ao poder e a ganância toma corações que deveriam estar dispostos em promover a paz e a concórdia entre as pessoas!
            A crise na Síria teve início em 2011. Tudo iniciou quando um grupo de 14 crianças escreveu em um muro na cidade de Daara um slogan relacionado às revoltas que ocorriam no Egito e na Tunísia. O povo sírio passou a pedir mais democracia e a resposta do presidente Assad foi a retaliação, quando forças nacionais abriram fogo contra a população desarmada que manifestava. Aos poucos, foram surgindo ações de oposição ao governo do presidente, que chegou a formar com partidos clandestinos e dissidentes o  Conselho Nacional Sírio, uma frente antigoverno. Um segundo grupo surgiu para se opor a ideologia islâmica deste Conselho, foi o Comitê de Coordenação Nacional. A luta armada é encabeçada por dissidentes do exército e se organizam com o nome de Exército Livre da Síria.
            Segundo a ONU mais de 100 mil pessoas foram mortos desde o início dos conflitos; outros afirmam que já ultrapassou os 200 mil. Estima-se que mais de 6 milhões necessitem de assistência humanitária e ultrapassa-se a cifra dos 2 milhões de refugiados. Em meio ao caos na Síria, serviços básicos como saúde, educação e alimentação já não acessíveis a grande parte da população. Além de tudo isso, afirma-se agora na comunidade internacional, o uso de armas químicas e premente uma intervenção internacional.
            A oposição a intervenção militar está embasada no princípio de que com a guerra não se ganha nada, muito pelo contrário, se perde tudo. Deve-se optar pela paz e pelo diálogo internacional para que o conflito encontre seu término. As grandes potências do mundo ou fecham os olhos para o sofrimento dos milhões de sírios, tratando-os com desprezo e fechando os ouvidos para os clamores que brotam das dores e perdas na Síria ou encontram a solução no desejo de fazer o governo de Assad pagar por todo mal e sofrimento impetrado na vida dos sírios.
            O som das bombas não pode se ser maior e sufocar o grito de quem sofre. O povo sírio já vive um inferno e não precisa de mais fogo neste abismo. Não se pode conceber que a guerra seja o caminho mais simples e mais fácil. Não é a cultura do atrito, do conflito, da violência que constrói a convivência entre pessoas e povos, mas o diálogo. É o único caminho para a paz. Trata-se de vidas, de histórias, de pessoas, que sofrem, que perdem vidas. Não são simples bonecos entre os interesses, nem sempre humanitários, dos países. É preciso que se acredite na paz, que se eleve de todos os cantos do mundo o clamor por ela. O papa Francisco foi enfático: “Nunca mais à guerra! A paz é um dom precioso demais; deve ser promovido e tutelado.” É preciso que o grito pela paz chegue a ser tão grandioso que todos os lados cheguem à sanidade da verdade e deponham as armas.
Em meio à onda de guerra, lembremos de quantos que não poderão ver a luz do futuro pelas ações impensadas! “O uso da violência nunca gera paz. Guerra chama guerra, violência chama violência!” – pede o papa Francisco: “Com toda a minha força, peço aos envolvidos neste conflito que ouçam as suas consciências, que não se fechem em seus interesses, mas vejam o próximo com seu irmão, que empreendam com coragem e decisão o caminho do encontro e das negociações superando cegas contraposições.”
Para que a paz seja a palavra definitiva em todo e qualquer conflito, Francisco convocou toda a Igreja a rezar no dia 7 de setembro para a paz na Síria, para a paz que é bem-aventurança que Cristo no convida a viver, para a paz que deve brotar do coração  de cada homem e mulher de boa vontade! Unamo-nos pela paz! Unamo-nos em favor uns dos outros! Unamo-nos em favor dos que mais sofrem! Unamo-nos por aqueles que se encontram desesperançosos!


sábado, 27 de abril de 2013

Violência e redução da maioridade penal, temas sociais



Geraldo Trindade
 bacharel em filosofia, cursa teologia no Seminário Arquidiocesano de Mariana

          




  Somos bombardeados pelos meios de comunicação, internet, jornais e telejornais, que, variavelmente, assusta-nos com notícias de violência e banalização da vida. Mata-se por qualquer motivo como se o aniquilamento do outro fosse a solução para todos os problemas e divergências.
            Em meio a ondas de violências e assassinatos, muitas vozes se levantam para reduzir a criminalidade e uma das soluções apresentadas é a redução da maioridade penal.           Da década de 90 para os dias de hoje, a violência foi crescendo gradativamente e se tornando um problema social. O Instituto Sagaris em 2012 elaborou um Mapa da Violência que destacou entre o ano de 1980 e 2010 um aumento de 259% de assassinatos no Brasil. No último ano da pesquisa houve quase 50 mil assassinatos. A taxa de homicídios atingiu 26,2/100 mil habitantes. Esse número, assustadoramente, supera países em guerra e em conflitos.
            As causas para o aumento da violência no Brasil, que é conhecido pela ausência de conflitos étnicos, raciais e religiosas, são várias e envolvem questões de ordem econômica, social, política, demográfica e cultural.
            A criminalidade e a violência estão associadas a pobreza e a desigualdade social. A redução do índice de pobreza não tem vindo acompanhado da redução da criminalidade, pois em comunidades carentes muitas pessoas, jovens e crianças, continuam sendo aliciadas e têm no crime uma opção de ascensão social e status. O sistema penitenciário não garante a nenhum condenado judicialmente a recuperação sócio-educativa e muitas vezes funciona como espaço de “aprendizado e aperfeiçoamento” nas organizações criminosas. Além do mais, há no imaginário popular a certeza de que a impunidade é mais eficiente do que a justiça.
            Une-se a isso a falta de planejamento urbano e o avanço avassalador das drogas; que fez com que a criminalidade migrasse dos grandes centros para as cidades do interior. O faturamento do tráfico das drogas no Rio de Janeiro e em São Paulo, segundo algumas informações, é de 700 milhões de reais/ano. O tráfico, além de alimentar o vício de milhares de pessoas, gera e mantém uma cadeia atroz de violência, incluindo o mercado de armas ilícitas. Dessa forma, o consumo de drogas deixa de ser uma opção pessoal e isolada, passa a ter reflexos sociais, trazendo fartas consequências sobre a vida de inúmeras pessoas.
            As políticas públicas falham, em muitas vezes, na prevenção, em termos de educação, moradia e emprego. Onde o estado não provê o direito do cidadão, o crime organizado e a criminalidade tomam espaço. É preciso introduzir em termos educacionais temas como cidadania, ética, educação para o trânsito, relações interpessoais, educar para uma consciência de solidariedade e valorização da vida, com a participação efetiva das famílias e da comunidade.  O  “educação para todos” tem tido grande avanços em termos de agregação e público atingido, porém também cresce e se perpetua o analfabetismo funcional, que é quando o estudante chega ao ensino médio sem os mínimos conhecimentos em aptidões básicas de leitura e interpretação. Mesmo assim, quase 3 milhões de crianças não tem acesso a um sistema de ensino regular
            É preciso, caso queira estancar o mal da violência, educar para a paz por meio de princípios morais e éticos que sejam capazes de nortear definitivamente  a vida, gerando e formando homens e mulheres imbuídos de espírito de cooperação mútua; ao contrário da competição egoísta propagandeada pela sociedade atual.
            Assim, toda evolução tecnológica e de acesso às facilidades da modernidade vem acompanhada de uma ascensão de consciência por meio de referenciais éticos na família, na sociedade, na política, nos meios de comunicação (tv, rádio, internet), nos esportes, nas escolas, nos trabalhos...
            A redução da maioridade penal que se ventila ser aprovada no legislativo brasileiro não é a solução para o problema da violência, que é somente a ponta do iceberg. Todos os problemas citados não são do desconhecimento da sociedade, mas que não exige mudanças; ao contrário, tolera e aceita. Quando acontece crimes em que estão envolvidos menores, imediatamente dá o grito e cobra, exigindo punição e castigo.
            A proposta de redução da maioridade penal vem para encobrir as fissuras existentes na eficiência do poder público na execução das políticas sociais direcionadas às crianças, adolescentes, jovens e famílias.
            Alguns mitos devem ser dissolvidos para que o projeto de redução da maioridade não se torne uma bandeira abraçada por desconhecimento. Não se pode culpar os adolescentes pelo alto índice de violência no país, pois eles são tão vítima dessa atrocidade quanto as pessoas de outras faixas etárias. O Brasil foi classificado no Mapa da Violência contra os jovens de 2011 entre os 4 países com maior índice de violência; são 44,2 casos em 100 mil jovens de 15 a 19 anos.
            Esse apelo pela redução da maioridade vem como fruto emocional das notícias sobre crimes bárbaros cometidos por jovens. Mas, não se pode generalizar esses crimes a todos os jovens e nem acreditar que somente leis mais rígidas serão capazes de reduzir ou resolver o problema da violência. Também não se pode cultivar um espírito de desconfiança em relação aos adolescentes. Não se pode anulá-los como se fossem estorvos, mesmo com seus problemas e conflitos; eles consistem em parceiros para a construção de uma sociedade melhor.
Além do mais, todo ser humano tem a facilidade de sempre encontrar culpa no outro e uma séria dificuldade de olhar para si mesmo e enxergar sua própria culpa. Generalizando e criando o imaginário de que a criminalidade é culpa de adolescentes e jovens leva ao esquecimento do egoísmo individual, da falta de solidariedade, da indiferença social em que muitos vivem, do consumismo e ostentação desenfreada. Tudo isso gera uma absurda desigualdade social e contribui para deixar os jovens desamparados e perdidos quanto ao presente, ao futuro e aos valores. Outro fator é que hoje há um grande cultivo do ódio, da vingança enquanto não se valoriza tanto aspectos da vida como o amor e o perdão.
Em suma, reduzir a idade penal não aponta e nem garante um futuro de mais respeito aos direitos do cidadão, pois negar direitos aos adolescentes e jovens de terem assistência de qualidade e eficiente do estado não gera nenhuma outro direito. Nenhuma sociedade que prima pela punição gera paz, muito pelo contrário, acaba gerando mais violência.

domingo, 7 de abril de 2013

Vale qualquer tipo de desenvolvimento?!


Geraldo Trindade

Nunca como nos dias atuais as questões psicológicas, os desajustes emocionais e receitas para “sarar” tais desarranjos estiveram em alta. Não é de se espantar que livros e textos sobre relacionamentos, afetividade, bem-estar, crescimento interior estejam na crista da onda e rapidamente se proliferam. É sabido também que temas como desigualdade social, questão ambiental, desigualdade, exploração são tomados como antiquados e desnecessários. O importante passou para a esfera da tecnologia, do desenvolvimento, da informação, dos meios de comunicação, dos comodismos da vida moderna: carro, viagens, celulares, tablets, computadores...
            Vem uma pergunta: vale qualquer tipo de desenvolvimento? Vale crescermos e atingirmos condições de consumo enquanto há pessoas sendo escravizadas, mortas, exploradas, desalojadas de suas casas, afastadas de suas famílias, vivendo em condições sub-humanas? Vale o Brasil “crescer” e se “desenvolver” a custa de sofrimento humano e da destruição ambiental?
            Não sou contra nenhum desenvolvimento e nenhuma comodidade da vida moderna. Nem sou contra o grande desejo do Brasil querer se transformar em um país de primeiro mundo. Sou sim contra um desenvolvimento, onde cada um de nós não se sente satisfeito com o que tem. Sou contra um desenvolvimento onde se ama as coisas e se utiliza as pessoas. Sou contra um desenvolvimento que não considera o respeito à vida e à história das pessoas e ao meio ambiente.
            O Brasil, tanto para os colonizadores quanto para os próprios brasileiros, foi e é visto como terra de exploração: pau-brasil, ouro, cana de açúcar, café, borracha, minérios, energia... São também muito os exemplos de projetos, planos e obras que só visam o lucro sem considerar os malefícios sócio-ambientais. Quer-se chegar a qualquer custo aos padrões de vida das grandes potências, mas este padrão não será usufruído por todos, pois é levado adiante desconsiderando as minorias e as parcelas mais sofridas e necessitadas. “O aspecto de conquista e exploração dos recursos tornou-se predominante e invasivo, e hoje chega a ameaçar a própria capacidade acolhedora do ambiente: o ambiente como ‘recurso’ corre o perigo de ameaçar o ambiente como ‘casa’.” (Doutrina Social da Igreja - DSI, 461).
            Exemplo disso é a obra do Belo Monte, uma usina hidrelétrica que está sendo construída no Rio Xingu no Pará, próximo à cidade de Altamira. A construção dessa obra é marcada por conflitos. Tem-se levantado questões muito prática, apresentadas por movimentos sociais, moradores da região e alguns técnicos.
            Pelo fluxo próprio de água da região amazônica a usina operará em determinadas épocas do ano com capacidade reduzida, ou seja, ela responderá somente por 10% da produção energética do país. A obra está orçada em mais ou menos 30 bilhões que poderiam ser investidos em outras fontes de energia como a solar e eólica. A área inundada prevista é de 640 Km quadrados, o que possivelmente afetará o fluxo de água, como também o escoamento natural do rio, afetará a fauna e a flora; além de ter como área de inundação regiões habitadas por ribeirinhos das cidades de Altamira, Ambé e área rural de Vitória do Xingu. Isso atinge diretamente pessoas que construíram ali a sua vida e sua história.
            A alteração ecológica afetará não só a região, mas todo o planeta; tendo em vista a função pulmonar da floresta amazônica no equilíbrio ambiental. Além disso, há o impacto social com o deslocamento de milhares de pessoas de todo o país para uma região que não tem ainda infraestrutura para acolhê-los e que acarretará em problemas sociais, como saúde e educação de baixíssima qualidade; prostituição, violência, uso de drogas, exploração escrava; ocupação desordenada, tráfico de drogas e humano.
            Dessa forma, é preciso, em pleno século XXI, refletirmos se vale a pena a sustentação de obras de um falso desenvolvimento que se estende e avança à revelia das mazelas humanas. Por maiores que sejam os benefícios ele não pode e não deve existir se leva a destruição de semelhantes, de homens, mulheres, jovens e crianças que têm suas vidas destruídas pela ganância. Além do mais, é sempre bom como cidadãos ficarmos atentos para percebermos que não estamos sozinhos no mundo e fazemos parte de uma aldeia global, que precisa do nosso zelo e do nosso cuidado, a fim de que as gerações futuras possam usufruir dos benefícios naturais e humanos. Não podemos jamais cairmos na mentalidade laxa de que “quanto mais melhor” ou então o “importante é desenvolver, mesmo a custa de muitos sofrimentos e vidas”.
            Fica-nos o conselho de que “a atitude que deve caracterizar o homem perante a criação é essencialmente a da gratidão e do reconhecimento: de fato, o mundo (a natureza, as pessoas) nos reconduz ao mistério de Deus, que o criou e sustém. Se tornamos incidental nossa relação com Deus, a natureza é esvaziada de seu significado profundo, e nós a depauperamos. Se, ao contrário, chegamos a descobrir a natureza na sua dimensão de criatura, é possível estabelecer com ela uma relação comunicativa, colher seu significado evocativo e simbólico, penetrar assim no horizonte do mistério, franqueado ao homem a abertura para Deus, Criador dos céus e da terra. O mundo se oferece ao olhar do homem como pegadas de Deus, lugar em que se desvela a Sua força criadora, providente e redentora.” (DSI, 487)
            Vale a pena algumas sugestões de sites que nos ajudam a refletir a problemática Belo Monte: Movimento Gota d’água (http://movimentogotadagua.com.br ) e Xingu Vivo (http://www.xinguvivo.org.br ).






domingo, 23 de outubro de 2011

O sonho verdadeiro da Paz

Geraldo Trindade - bacharel em filosofia, estudante de teologia e mantém o blog PENSAR PARALELO (http://www.pensarparalelo.blogspot.com/ )

Quando se fala de moral quer-se ter em vista a quem ela destina, qual a sua finalidade. Por mais que ela se esforce em seu discurso não consegue abarcar toda a complexidade do ser humano e menos ainda de todas as realidades sociais.  No caso da Moral Social não bastam as análises econômicas, sociais; mas acima de tudo a análise à luz do Evangelho, que é o próprio Cristo: ensinamentos e práxis.
“Toda ética abstrata leva-nos a uma ética concreta. Não se pode e não se deve dizer uma vez por todas o que é bom, mas só isto: como Cristo toma forma aqui hoje.”[1]
Quando se fala em paz, quer saber que tipo de paz, pois são múltiplas e divergentes as concepções de paz e diversos os caminhos e instrumentos indicados para consegui-la. Para agravar, concebe-se erroneamente a paz como ausência de guerra.
No universo da paz há uma gama de conceitos. Há a difusão da paz divorciada da exigência de justiça; como aniquilamento do inimigo baseando-se no poderio das armas. Existe a paz diplomática e política. Mas, o ideal de paz é a paz positiva, onde cresça a justiça, o respeito aos direitos das pessoas e dos povos a partir da não-violência.
            O papel do cristão deve ser o de promover essa paz. E no longo processo da história, eles sempre foram protagonistas conscientes caracterizados pela paz e não-violência.
Todas as pessoas aspiram por segurança e o estado tem o dever de zelar e criar mecanismos para que ela se concretize.
A história da humanidade é caracterizada pelo espírito conflitivo. Desde a remota antiguidade os seres humanos se esforçam constantemente para administrar pacificamente sua convivência. O conflito e a violência só são realidades possíveis pela presença da agressividade no ser humano.
A palavra violência vem do latim violentia, que tem como elemento definidor o caráter da força.[2]
R. Domergué sendo citado por Vidal para explicitar o termo violência afirma: “A violência é sempre violência de alguém ( pessoa ou grupo). Sempre se exerce contra alguém ( pessoa ou grupo). Tem um rosto preciso, o dos instrumentos ou das técnicas que utiliza. Insere-se numa situação histórica determinada. Toda dissertação da violência que se conformasse em considerá-la abstradamente, sem se deter nessa característica, peca por irrealismo e se converteria em mera manipulação de princípios gerais.”[3]
A violência está presente em um determinado contexto histórico e ela se manifesta sob diversos meios, podendo ser classificados por alguns tipos:
- estrutural:  é a violência repressiva  ou coativa exercida pelas forças do poder político.
- de resistência ou rebelião: organizada em torno do combate às situações pessoais ou estruturais que se julguem injustas e opressivas.
- bélica: utilizada partindo de uma pretensa legitimidade sócio-jurídica; manifesta-se através da guerra.
- subversiva ou terrorista: quando persegue o fim da desestabilização.
No Brasil, a violência sempre foi uma constante. A colonização foi marcada pela violência, pelo desrespeito dos colonizadores com os colonizados, em especial índios e negros. Esse passado de conflitos deixou heranças que geraram esse espírito de desconfiança e medo. As marcas estão presentes nas mortes de jovens, em grupos de extermínios, que atuam sob interesses escusos.
Tudo isso são marcas de conflitos, ou seja, quando a paz não consegue estabelecer suas raízes no coração humano.
Para aplacar esse espírito indômito de violência as leis e constituições surgiram como necessidade de determinação precisa da participação de cada ator na defesa e na administração das questões comuns. “O conflito é basicamente o confronto entre duas posições diferentes que buscam a conquista da hegemonia.”[4] Ele se torna um mal quando é encarado de forma radical, imatura, sem diálogo, assim, gera a violência. Os conflitos são originados a partir da própria interioridade da pessoa humana que se descobre limitada e ambígua, da hierarquia de valores pessoais estabelecidos pelo indivíduo e a não satisfação das necessidades pessoais e comunitárias. Em um contexto tão volátil, os conflitos são os mais diversificados. Eles são de ordem pessoal, familiar e social.
“Esses conflitos podem se transformar em ações violentas quando houver a ‘utilização intencional de força ou poder físico por ameaça ou de fato contra si mesmo, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade que resulta em ou tem alta probabilidade de resultar em ferimentos, morte, dano psicológico, mau desenvolvimento ou privação’, podendo se manifestar também em agressões sexuais.”[5]
A paz é um valor universal que deve ser cultivado nos corações humanos, pois encontra suas raízes no próprio coração de Deus. Como a paz, a moral tem como alvo todos os homens e mulheres de boa vontade. Para que essa realidade se torne realidade  existem dimensões[6] necessárias:
-  “conversão à verdade da paz” (GS, 77) como obra de justiça, ação permanente e fruto do amor.
- atitudes de paz em cada homem em cada grupo.
- estratégias de paz que levem a uma realidade plena de paz.
Desponta a atitude de tolerância, que não é meramente passividade como retirada do conflito, mas no sentido de negociação como um valor a se conquistar, um caminho em direção à solidariedade, como uma forma de administrar os conflitos em busca de uma sociedade mais justa, solidária e fraterna.
Gradualmente constrõe-se a paz, que exige conversão constante. O que cada vez mais é difícil é este estabelecimento de diálogo com o mundo, pois a afirmação do forte dom do shalom, da paz não é reconhecido como um processo íntimo e pessoal.
      Häring afirma que a paz é o centro de toda a cultura e de toda a vida em todas as sociedades. “No centro da ética da cultura, estará o objetivo de cultura não-violenta, sadia, orientada para a paz em todas as suas dimensões. (...) De fato, toda a ética social e econômica terá como chave o shalom: dom e tarefa.”[7] Dom, porque a paz provém não das forças humanas, mas ela é  dom de Deus, que é o verdadeiro doador dessa graça e é tarefa, enquanto após a acolhida desse dom se torna responsabilidade de cultivá-la e estabelecer relações fraternas, de paz.
O cristão age na edificação da paz tendo como critério de ação o mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.” (Jo 15,12) A construção da paz será possível conforme o direcionamento dado por Jesus, “que dá à palavra amor o seu mais profundo significado: o amor transformado em ação, em gesto concreto, esvaziamento de si, entrega, reconciliação, serviço, oblação, gratuidade.”[8]
Certamente, a cruz do Ressuscitado direciona para um caminho possível para seus seguidores, que deverão se caracterizar pelo perdão aos inimigos e pelo processo constante de reconciliação. Mas, a tarefa de realizar a paz de Cristo na terra jamais pode ser considerada completa porque a paz nunca se alcança de modo estável, mas é preciso construí-la constantemente neste mundo ferido pelo pecado e pelos conflitos.





[1] Hubert LEPARGNEUR. Fontes da moral na igreja. Petropólis: Vozes, 1978, p. 14.
[2] Cf. Marciano VIDAL. Moral de atitudes. Trad. Ivo Montanhese. v.3. Aparecida: Santuário, sd, p.570 .
[3] Marciano VIDAL. Moral de atitudes, p. 571.
[4] CNBB. Texto-base da CF 2009, p . 30
[5] CNBB. Texto-base da CF 2009.  Brasília: Edições CNBB, 2009, p . 32.
[6] Cf.: Marciano VIDAL. Moral de atitudes, p. 598-599.
[7] HÄRING, Bernhard. Teologia moral para o terceiro milênio, p. 157.
[8] CNBB. Texto-base da CF 2009, p. 86.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011



Breves reflexões sobre a PAZ
Geraldo Trindade

                No mundo sempre esteve presente os conflitos, as guerras, as disputas... As divisões e disputas são presentes tanto no âmbito global quanto no das relações. É como se essa ignominiosa doença estivesse presente a todo momento e fosse impossível eliminá-la.
                As palavras de PAZ se dirigem a todos, mas especialmente àqueles nos quais prevalecem o sendo de paz ao Ives da guerra. Porém, nem todos os corações são capazes de realizá-la.
                Porque A PAZ É UM DOM. ela brota do coração, do íntimo, ela é improduzível pelas próprias forças.  No entanto, ela é desejada como libertação e às vezes como sonho quase inatingível. Ela provém e é sentida por meio dos corações e das ações dos homens.
                Mas, de onde vem a guerra?
                Ora, ela é ausência da paz. Quando a PAZ passa a inexistir, levando a humanidade à conflitos?
                A guerra inicia quando exatamente os homens não mais reconhecem Deus como o protagonista e construtor da história; e colocam como critério e horizonte para julgar os relacionamentos e os problemas outras coisas e valores; tais como: poder, dinheiro, ideologias, comodidade ou utilidade.
                A PAZ começa no reconhecimento que gera a esperança indomável. Isso não é possível aos homens covardes, mas aos homens que diuturnamente lutam pela vida, renovados pela esperança,como consciência e responsabilidade, agem pela paz no mundo e nos relacionamentos.