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sábado, 5 de março de 2016

Qual deve ser a atitude de um cristão?

Geraldo Trindade 

            Muito se fala, discute e escreve sobre a situação brasileira. Na verdade, sobre o caos que impera sobre todos nós e um precipício se apresenta à nossa frente!
            Vivemos ou pior, experimentamos na pele a catástrofe econômica, onde cada dia mais as famílias perdem seu poder aquisitivo. Além disso, temos uma crise política onde os representantes, que deveriam liderar e trabalhar para o bem comum se esbaldam em negociatas e puro desprezo pelo bem público. O que vemos é uma maquina público-administrativa que é incapaz de garantir bom serviço nos setores da saúde, educação, segurança, transporte públicos, água e energia elétrica. Não se pode culpabilizar a falta de um orçamento que garanta melhorias no serviço público porque a sensação que se tem é que  os recursos não são escassos quando se trata de transferências do dinheiro público para as contas pessoais, gerando a enojada corrupção, tão conhecida e praticada descaradamente à revelia do bem do povo.
            Parece que os valores estão invertidos, que nada mais caminha como deveria caminhar. Vemos os bons estagnados enquanto os desonestos buscam seus “jeitinhos” para tirar vantagens que envergonham qualquer pessoa de caráter!
            Ainda há muitos problemas que não têm acesso à educação de qualidade, recebem baixos salários e têm dificuldade em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como educação, transporte público e saneamento básico. As drogas cada dia mais ingressam nos variados ambientes e disseminam um rastro de morte e violência pelas cidades e famílias.
           Qual deve ser a atitude de um cristão? De que modo se pode influenciar em um mundo tão cheio de mal, corrupção e violência? 
            Jesus usa duas imagens: sal e luz (Mt 5, 13-16).
            O sal é que dá sabor, dá tempero àquilo que está insosso; evita que se perca o alimento, além do sal estar associado à pureza. Dessa forma, o cristão deve dar novo sabor ao ambiente que lhe cerca, evitando que o mal progrida e avance na vida e no coração. Não se deixando apodrecer pelas consequências do pecado. Jesus em outra passagem nos alerta: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).
            A luz é um símbolo muito especial nas Sagradas Escrituras. “Deus é luz e nele não há treva alguma” (1 Jo 1, 5). “O povo que andava em trevas viu grande luz” (Is 9, 1). Jesus se referia a ele como luz: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (Jo 8, 12). Os seus discípulos, os que permanecem junto a Ele também são luz. Por meio deles a luz de Cristo se manifesta em cada rosto, nas palavras, nas ações, e ilumina o mundo. A luz elimina as trevas como também as boas obras eliminam cada dia mais o mal da nossa vida, ou seja, no testemunho diário deve-se proclamar o modo de Jesus agir. Dessa forma, as boas obras praticadas não devem chamar atenção para quem a pratica, mas para Deus.
            A missão do cristão é dupla no mundo: como sal, para interromper, ou pelo menos retardar este processo da corrupção moral e espiritual, e como luz, para desfazer as trevas. Recorda-nos o papa Francisco: “Não se pode entender um cristão que não seja testemunha. Nós não somos uma ‘religião’ de ideias, de pura teologia, de coisas belas, de mandamentos. Não, nós somos um povo que segue Jesus Cristo e oferece testemunho”.




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Refletindo a Campanha da Fraternidade 2014

Geraldo Trindade



Este ano a Igreja Católica no Brasil no tempo da Quaresma; que convida à conversão, oração e reflexão; desenvolverá a Campanha da Fraternidade, que trará como tema: Fraternidade e tráfico humano e o lema: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).
            Mais de 200 anos após o 13 de maio que extinguiu com a escravidão no Brasil, milhões de pessoas continuam sendo tratadas como mercadorias, passíveis de serem vendidas, compradas e exploradas.
            A ONU por meio do protocolo de Palermo (2003) define o tráfico de pessoas como “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo-se à ameaça ou ao uso da força ou a outras formas de coração, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter consentimento de uma pessoa que tenha  autoridade sobre outra para fins de exploração”.
            As vítimas do tráfico humano são retiradas de seu ambiente, de seu país ou cidade e passa a ter sua mobilidade reduzida; pois são usadas para a exploração sexual ou de trabalho. Outros meios para o aliciamento das pessoas são as propostas de trabalho na agricultura, pecuária, comércio, construção civil ou oficinas de costura.
            A pessoa humana criada por Deus (Gn 1, 26-27), vista como fruto querido e amado da criação divina, deixa de ser sujeito capaz de liberdade e passa a ser tratada como objeto, um produto, uma mercadoria, que se vende, troca, transporta e explora. O tráfico humano e a exploração buscam privar a pessoa da sua dignidade, da sua liberdade e capacidade de orientar sua vida. O reconhecimento da filiação divina possibilita que, por Jesus cristo, todos são dignos de ter sua vida respeitada. Dessa forma, tudo o que vai contra a vida também vai contra o projeto do Reino de Deus, realidade onde “justiça e paz se abraçarão” (Sl 85,11), pois o Senhor é o Deus que liberta e salva os oprimidos, liberta das algemas da opressão; pois leva ao cumprimento pleno o plano salvífico de Deus (Lc 4, 14-21).
            No Brasil, mais de 25 mil pessoas prestam serviços presas em fazendas, garimpos e carvoarias. De 1995 a 2008 cerca de 33750 foram libertadas do trabalho escravo. Em 21 estados da federação já foram encontrados trabalhos escravos. No ano de 2000 foi desmantelada uma rede de tráfico humano para a venda de órgãos que ligava o Pernambuco e a África do Sul. Em 2004, o Ministério Público denunciou 28 pessoas por este crime. A comercialização de 30 órgãos movimentou 4, 5 milhões de dólares neste esquema criminoso. Há ainda o tráfico interno de pessoas no Brasil para o trabalho em situações ilegais e subumanas. O nosso país, infelizmente, é também importador de mão de obra dos países vizinhos, principalmente da Bolívia, do Peru, do Paraguai, do Haiti e da Colômbia.
            No âmbito internacional, das 2,5 milhões de pessoas traficadas, 43% são para a exploração sexual, 32% para a exploração econômica e 25% para os dois ao mesmo tempo.
            O tráfico humano está diretamente associado ao modelo de desenvolvimento presente na economia, pois a competitividade e o desejo de lucro pressiona para que se reduza os gastos do trabalho, a “flexibilizar” as leis trabalhistas para que o produto final chegue a um preço mais baixo e gere um consumo maior. Porém, tais mercadorias, que alimentam a sede de lucro vem da exploração escrava de homens, mulheres e crianças; que têm sua liberdade cerceada, seus planos e projetos desfeitos, seus laços afetivos relegados ao esquecimento.
            Esta Campanha da Fraternidade favorece-nos em gestos concretos claros e pertinentes:
- estar atento para perceber pessoas que aliciam outras para o trabalho e atividades que não respeitam as leis trabalhistas e denunciá-las;
- buscar em nossas relações trabalhistas pautar pela justiça e honestidade para com as leis trabalhistas e os direitos dos trabalhadores;
- dar prioridade à compra de mercadorias de lugares e regiões que não utilizem de mão de obra explorada desrespeitando os direitos dos trabalhadores;
- educar-se para a vida de liberdade, reconhecendo-se como filhos e filhas de Deus, criados em dignidade e amor.

            A fé cristã favorece que cada cristão se reconheça construtor de um mundo novo, onde o Evangelho encontre acolhida nas estruturas sociais e nos corações humanos; onde a Vida em plenitude seja a meta concreta de uma vida imersa em Cristo. Em Jesus somos plenamente livres, a Lei do Amor deve ser vivida plenamente, sem diferenciações, à ponto que se possa afirmar que “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”(Gl 2,20); pois sabemos que o Amor nos criou e se entregou de forma plena e radical na cruz. Assim, ninguém tem a capacidade e o poder de inibir a liberdade do outro, pois “todos são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gl 3, 26).

domingo, 1 de setembro de 2013

Conflito na Síria: “O uso da violência nunca gera paz”






Geraldo Trindade

Mais uma vez o mundo se encontra sobre o alarme de uma guerra com consequências inimagináveis! Mais uma vez a insanidade da guerra se sobrepõe ao valor do diálogo! Mais uma vez o apego ao poder e a ganância toma corações que deveriam estar dispostos em promover a paz e a concórdia entre as pessoas!
            A crise na Síria teve início em 2011. Tudo iniciou quando um grupo de 14 crianças escreveu em um muro na cidade de Daara um slogan relacionado às revoltas que ocorriam no Egito e na Tunísia. O povo sírio passou a pedir mais democracia e a resposta do presidente Assad foi a retaliação, quando forças nacionais abriram fogo contra a população desarmada que manifestava. Aos poucos, foram surgindo ações de oposição ao governo do presidente, que chegou a formar com partidos clandestinos e dissidentes o  Conselho Nacional Sírio, uma frente antigoverno. Um segundo grupo surgiu para se opor a ideologia islâmica deste Conselho, foi o Comitê de Coordenação Nacional. A luta armada é encabeçada por dissidentes do exército e se organizam com o nome de Exército Livre da Síria.
            Segundo a ONU mais de 100 mil pessoas foram mortos desde o início dos conflitos; outros afirmam que já ultrapassou os 200 mil. Estima-se que mais de 6 milhões necessitem de assistência humanitária e ultrapassa-se a cifra dos 2 milhões de refugiados. Em meio ao caos na Síria, serviços básicos como saúde, educação e alimentação já não acessíveis a grande parte da população. Além de tudo isso, afirma-se agora na comunidade internacional, o uso de armas químicas e premente uma intervenção internacional.
            A oposição a intervenção militar está embasada no princípio de que com a guerra não se ganha nada, muito pelo contrário, se perde tudo. Deve-se optar pela paz e pelo diálogo internacional para que o conflito encontre seu término. As grandes potências do mundo ou fecham os olhos para o sofrimento dos milhões de sírios, tratando-os com desprezo e fechando os ouvidos para os clamores que brotam das dores e perdas na Síria ou encontram a solução no desejo de fazer o governo de Assad pagar por todo mal e sofrimento impetrado na vida dos sírios.
            O som das bombas não pode se ser maior e sufocar o grito de quem sofre. O povo sírio já vive um inferno e não precisa de mais fogo neste abismo. Não se pode conceber que a guerra seja o caminho mais simples e mais fácil. Não é a cultura do atrito, do conflito, da violência que constrói a convivência entre pessoas e povos, mas o diálogo. É o único caminho para a paz. Trata-se de vidas, de histórias, de pessoas, que sofrem, que perdem vidas. Não são simples bonecos entre os interesses, nem sempre humanitários, dos países. É preciso que se acredite na paz, que se eleve de todos os cantos do mundo o clamor por ela. O papa Francisco foi enfático: “Nunca mais à guerra! A paz é um dom precioso demais; deve ser promovido e tutelado.” É preciso que o grito pela paz chegue a ser tão grandioso que todos os lados cheguem à sanidade da verdade e deponham as armas.
Em meio à onda de guerra, lembremos de quantos que não poderão ver a luz do futuro pelas ações impensadas! “O uso da violência nunca gera paz. Guerra chama guerra, violência chama violência!” – pede o papa Francisco: “Com toda a minha força, peço aos envolvidos neste conflito que ouçam as suas consciências, que não se fechem em seus interesses, mas vejam o próximo com seu irmão, que empreendam com coragem e decisão o caminho do encontro e das negociações superando cegas contraposições.”
Para que a paz seja a palavra definitiva em todo e qualquer conflito, Francisco convocou toda a Igreja a rezar no dia 7 de setembro para a paz na Síria, para a paz que é bem-aventurança que Cristo no convida a viver, para a paz que deve brotar do coração  de cada homem e mulher de boa vontade! Unamo-nos pela paz! Unamo-nos em favor uns dos outros! Unamo-nos em favor dos que mais sofrem! Unamo-nos por aqueles que se encontram desesperançosos!


domingo, 7 de abril de 2013

Vale qualquer tipo de desenvolvimento?!


Geraldo Trindade

Nunca como nos dias atuais as questões psicológicas, os desajustes emocionais e receitas para “sarar” tais desarranjos estiveram em alta. Não é de se espantar que livros e textos sobre relacionamentos, afetividade, bem-estar, crescimento interior estejam na crista da onda e rapidamente se proliferam. É sabido também que temas como desigualdade social, questão ambiental, desigualdade, exploração são tomados como antiquados e desnecessários. O importante passou para a esfera da tecnologia, do desenvolvimento, da informação, dos meios de comunicação, dos comodismos da vida moderna: carro, viagens, celulares, tablets, computadores...
            Vem uma pergunta: vale qualquer tipo de desenvolvimento? Vale crescermos e atingirmos condições de consumo enquanto há pessoas sendo escravizadas, mortas, exploradas, desalojadas de suas casas, afastadas de suas famílias, vivendo em condições sub-humanas? Vale o Brasil “crescer” e se “desenvolver” a custa de sofrimento humano e da destruição ambiental?
            Não sou contra nenhum desenvolvimento e nenhuma comodidade da vida moderna. Nem sou contra o grande desejo do Brasil querer se transformar em um país de primeiro mundo. Sou sim contra um desenvolvimento, onde cada um de nós não se sente satisfeito com o que tem. Sou contra um desenvolvimento onde se ama as coisas e se utiliza as pessoas. Sou contra um desenvolvimento que não considera o respeito à vida e à história das pessoas e ao meio ambiente.
            O Brasil, tanto para os colonizadores quanto para os próprios brasileiros, foi e é visto como terra de exploração: pau-brasil, ouro, cana de açúcar, café, borracha, minérios, energia... São também muito os exemplos de projetos, planos e obras que só visam o lucro sem considerar os malefícios sócio-ambientais. Quer-se chegar a qualquer custo aos padrões de vida das grandes potências, mas este padrão não será usufruído por todos, pois é levado adiante desconsiderando as minorias e as parcelas mais sofridas e necessitadas. “O aspecto de conquista e exploração dos recursos tornou-se predominante e invasivo, e hoje chega a ameaçar a própria capacidade acolhedora do ambiente: o ambiente como ‘recurso’ corre o perigo de ameaçar o ambiente como ‘casa’.” (Doutrina Social da Igreja - DSI, 461).
            Exemplo disso é a obra do Belo Monte, uma usina hidrelétrica que está sendo construída no Rio Xingu no Pará, próximo à cidade de Altamira. A construção dessa obra é marcada por conflitos. Tem-se levantado questões muito prática, apresentadas por movimentos sociais, moradores da região e alguns técnicos.
            Pelo fluxo próprio de água da região amazônica a usina operará em determinadas épocas do ano com capacidade reduzida, ou seja, ela responderá somente por 10% da produção energética do país. A obra está orçada em mais ou menos 30 bilhões que poderiam ser investidos em outras fontes de energia como a solar e eólica. A área inundada prevista é de 640 Km quadrados, o que possivelmente afetará o fluxo de água, como também o escoamento natural do rio, afetará a fauna e a flora; além de ter como área de inundação regiões habitadas por ribeirinhos das cidades de Altamira, Ambé e área rural de Vitória do Xingu. Isso atinge diretamente pessoas que construíram ali a sua vida e sua história.
            A alteração ecológica afetará não só a região, mas todo o planeta; tendo em vista a função pulmonar da floresta amazônica no equilíbrio ambiental. Além disso, há o impacto social com o deslocamento de milhares de pessoas de todo o país para uma região que não tem ainda infraestrutura para acolhê-los e que acarretará em problemas sociais, como saúde e educação de baixíssima qualidade; prostituição, violência, uso de drogas, exploração escrava; ocupação desordenada, tráfico de drogas e humano.
            Dessa forma, é preciso, em pleno século XXI, refletirmos se vale a pena a sustentação de obras de um falso desenvolvimento que se estende e avança à revelia das mazelas humanas. Por maiores que sejam os benefícios ele não pode e não deve existir se leva a destruição de semelhantes, de homens, mulheres, jovens e crianças que têm suas vidas destruídas pela ganância. Além do mais, é sempre bom como cidadãos ficarmos atentos para percebermos que não estamos sozinhos no mundo e fazemos parte de uma aldeia global, que precisa do nosso zelo e do nosso cuidado, a fim de que as gerações futuras possam usufruir dos benefícios naturais e humanos. Não podemos jamais cairmos na mentalidade laxa de que “quanto mais melhor” ou então o “importante é desenvolver, mesmo a custa de muitos sofrimentos e vidas”.
            Fica-nos o conselho de que “a atitude que deve caracterizar o homem perante a criação é essencialmente a da gratidão e do reconhecimento: de fato, o mundo (a natureza, as pessoas) nos reconduz ao mistério de Deus, que o criou e sustém. Se tornamos incidental nossa relação com Deus, a natureza é esvaziada de seu significado profundo, e nós a depauperamos. Se, ao contrário, chegamos a descobrir a natureza na sua dimensão de criatura, é possível estabelecer com ela uma relação comunicativa, colher seu significado evocativo e simbólico, penetrar assim no horizonte do mistério, franqueado ao homem a abertura para Deus, Criador dos céus e da terra. O mundo se oferece ao olhar do homem como pegadas de Deus, lugar em que se desvela a Sua força criadora, providente e redentora.” (DSI, 487)
            Vale a pena algumas sugestões de sites que nos ajudam a refletir a problemática Belo Monte: Movimento Gota d’água (http://movimentogotadagua.com.br ) e Xingu Vivo (http://www.xinguvivo.org.br ).






quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A política não deveria ser assim...


Geraldo Trindade 


  O assunto política traz, nos tempos atuais, um sentimento de repugnância e até mesmo de descrença. Fala-se dela, mas sempre com uma desconfiança, talvez por se perceber que no exercício desta arte-serviço os interesses particulares se sobrepuseram e esmagaram os interesses e o bem comum.
      Quantos escândalos abalaram o país e se projetaram na mídia! Mensalão, dólar na cueca, operação dominó, caso Carlinhos Cachoeira... De certo, a corrupção é uma das maiores queixas da sociedade, pois causa impactos destrutivos na vida do cidadãoe da sociedade.
        Outros fatores aumentam a indiferença dos eleitores. É uma infinidade longe de partidos e candidatos sem que eles tenham, de fato, um comprometimento efetivo na sociedade. A ausência de debates transformou os partidos e os candidatos em uma série de massa, onde é impossível analisar e comparar. Enquanto isso, fala-se muito e poucas propostas práticas são apresentadas.
A reação do eleitor é a mais absurda apatia. Ele passa a votar porque é lei e obrigação. Escolhe por simpatia ou vota em qualquer um, pois considera que a política não serve para muita coisa. Os políticos tomam os cargos públicos como profissão e fonte de renda. Repetem as mesmas falas, mesmo não se dando conta do que proferem, mas cai bem aos ouvidos dos eleitores. E isso cada vez importa mais: o efeito que se produz. Cresce, assim, a ação dos marqueteiros, que tem a função de tornar o candidato palatável aos eleitores. Perde a democracia e ganha-se o negócio e a “arte cênica”.
Toda essa realidade pode parecer desestimulante, mas ao cristão não comporta aceitação e resignação. É preciso uma corajosa renovação pessoal e social que assegure mudanças de mentalidades para se chegar às das estruturas. “Os fiéis leigos não podem de maneira nenhuma abdicar de participar na ‘política’, ou seja, na multíplice e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover de forma orgânica e institucional o bem comum” (Christifideles laici, n. 42)”, que compreende a promoção e defesa de bens, como é a ordem pública e a paz, a liberdade e a igualdade, o respeito da vida humana e do ambiente, a justiça e a solidariedade.
Por isso, as eleições municipais que estão mais diretamente ligadas à realidade vivida pelo cidadão é tão importante e decisiva nos rumos das políticas públicas das cidades. Por isso, esse voto não pode ser subestimado e é a nossa voz e resposta no sistema democrático. É preciso que se escolha bem, que se avalie o candidato, suas propostas, sua atuação, sua honestidade... Só assim que será possível um exercício amadurecido e autêntico da política.
Seguem algumas dicas que podem auxiliar na escolha do próximo dia 7 de outubro:
1º) Conheça a vida dos candidatos
É importante que as pessoas verifiquem a vida dos candidatos, seja no histórico pessoal ou na vida pública. De certa forma, nessas eleições os candidatos são mais fáceis de serem conhecidos porque certamente são pessoas que têm uma história na nossa cidade.
2º) Procure saber se eles já ocuparam funções públicas e suas condutas
É importante verificar as funções públicas e as realizações que os atuais candidatos ocuparam ou se pleiteiam a reeleição. Inclusive é importante verificar se são candidatos Ficha Limpa, se não há nada que os desabonem em sua conduta pública.
3º) Descubra quais as propostas desse candidato para a cidade
Quais os interesses que os candidatos estão se propondo a representar? Porque muitos fazem promessas que não poderão cumprir, pois não compete ao cargo que pretendem ocupar. Por exemplo, vereadores não fazem obras, mas sim o executivo.
Analise quais as propostas que os candidatos apresentam para a vida da comunidade, quais são as propostas para o sistema viário, para o meio ambiente, para a saúde, para a educação, para a geração de renda e empregos... 
É preciso pesquisar bem os candidatos, conhecer suas propostas, seus partidos e analisar aqueles que mais se enquadram nos valores que nós defendemos.
4º) Verifique se eles se propõem a exercer sua função com transparência
Nas propostas dos candidatos existe algo que ajude a dar mais transparência? Que ajude no combate à corrupção?
5º) Analise se as propostas favorecem a democracia participativa
Outro aspecto a ser observado é se os candidatos promovem a participação da sociedade como a criação e o funcionamento dos conselhos municipais. Após o período eleitoral é preciso voltar a conversar com o candidato sobre o cumprimento dos compromissos assumidos e o exercício do seu mandato. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Vou fazer diferente nestas eleições de 2012.

Geraldo Trindade 

No próximo 7 de outubro em todo o Brasil haverá o que é chamado “festa da cidadania”, ou seja, as eleições, que neste ano são em nível municipal. É neste momento que o eleitor diante das urnas confiará a prefeitos e vereadores os cargos de condução e governo de nossas cidades. O ato de digitar alguns números pode até ser tomado como simples e passado algum tempo, cair no esquecimento individual e coletivo. Porém, os efeitos do voto costumam ter consequências que duram bem mais do que nossa memória. 

O envolvimento sério e consciente no pleito é questão de dever e direito do cidadão e auxilia na construção da democracia representativa, ou seja, os representantes (vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, presidente...) exercem seu poder em nome do povo e não com um poder próprio. Eles devem buscar em sua função de representantes do povo o bem comum da sociedade e nunca em favor do seu próprio bem ou de grupos. 


É evidente que o tempo que estamos vivendo é de descrédito em relação a política, pois ela e os políticos já não conseguem responder às questões, demandas e anseios da população. É preciso lembrar que pautar-se pela ética e por uma conduta ilibada não é somente matéria para discursos ou favor que se presta à sociedade. Ser correto não deve ser algo extraordinário ou material para campanha eleitoral. É obrigação de cada cidadão, inclusive de todos os que disputam e ocupam cargos públicos. 

Para que a corrupção,
os desmandos e a falta de transparência nas coisas públicas não se tornem um desencanto constante na vida dos brasileiros é preciso que se renovem as estruturas e as pessoas. Isso podemos por meio de nosso voto consciente. É preciso que homens e mulheres de fé se tornem sal, luz e fermento onde são ausentes os valores cristãos. Como pessoas de fé todos são chamados a escutar os clamores do povo, a se pautar por valores humanos e éticos condizentes com os valores reais do Evangelho para que se construa em nosso meio uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

As eleições municipais têm um distintivo, pois coloca em disputa projetos para solucionarem problemas que estão próximos do cidadão, tais como: educação, saúde, segurança, trabalho, transporte, moradia, lazer, cultura, ecologia... Além do mais, os candidatos são mais próximos, o que deve favorecer com que a escolha seja mais acertada. O voto é pessoal e intransferível, mas tem consequências para a vida de toda a comunidade, por isso não se pode pensar que o exercício da cidadania só se dá no momento em que se vota. 

É preciso que o eleitor estabeleça critérios dignos para discernir os autênticos políticos e estes estejam atentos para compreender que seu mandato é um serviço à população e não meio de se enriquecer ou de atender outros interesses. O verdadeiro político pensa no bem da sociedade, especialmente dos pobres e necessitados. “Eles, os políticos, precisam ter seu histórico de coerência de vida e discurso político referendados pela honestidade, pela competência, pela transparência e pela vontade de servir ao bem comum. Os valores éticos devem ser o farol a orientar os eleitores, em contínuo diálogo entre o poder local e suas comunidades.” (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB) 

A partir deste horizonte algumas pistas nos deixam esclarecidos: vote sempre, pois não votar é omissão; vote com liberdade, pois na democracia se é livre para escolher; o voto é um direito e um dever de todo cidadão; não venda seu voto; conheça o candidato, sua história, suas alianças políticas; conheça o programa dos candidatos; fique atento às falsas promessas; vote com consciência exigindo projetos consistentes e que visem o presente e o futuro da cidade; examine quem está financiando a campanha do seu candidato e acompanhe os eleitos. As eleições são o começo de um processo e nunca o fim. Por isso, faça diferente, vote consciente.

segunda-feira, 23 de abril de 2012


Acompanhar a RIO+20 é um dever de todo o cidadão

Geraldo Trindade – bacharel em filosofia.



O mundo voltará sua atenção para o Brasil nos dias 20 a 22 de junho de 2012. Não por causa de algum evento de cunho esportivo ou religioso, mas pela reunião dos 193 países que compõem as Nações Unidas para a discussão de temas como o desenvolvimento sustentável e o combate a pobreza. A cada 10 ou 20 anos realiza-se essas conferências, que já ocorreram em Estocolmo (Suécia) em 1972, no Rio de Janeiro – ECO-92 em1992, em Joanesburgo (África do Sul) em 2002 e agora presenciaremos a RIO+20, que pretende lançar base para o mundo que queremos para o futuro e as próximas gerações.
         A Rio+20 é um impulso, um ânimo novo na sustentabilidade da ação humana no mundo, que está tão predatória e inconsequente. É preciso que se crie consciência e solidariedade para que os desafios como poluição, extinção, aquecimento global, desigualdade, fome, desrespeito à vida, educação básica de qualidade, mortalidade infantil sejam debatidos e enfrentados com seriedade e boa vontade política.
            De certo é que nesta conferência dois temas dominem a discussão. Um deles, é a economia verde, tendo em perspectiva a busca de um desenvolvimento econômico sustentável, não se esquecendo da preservação ambiental. Tudo isso, passando, necessariamente, pela erradicação da pobreza. Outro tema que surgirá nas discussões é a governança global, já que é impossível pensar uma ação em favor do ambiente e da vida se não for abraçada de modo global.
            A importância deste temário se dá quando nos damos conta de que estamos no esgotamento dos recursos naturais do planeta Terra. Já se consumiu 1/3 de toda biodiversidade; 25% das terras estão se desertificando; hoje 1 bilhão de pessoas passam fome; 40% da humanidade está abaixo da linha de pobreza; somente 30% do esgoto gerado é tratado; por falta de comida milhares de pessoas morrem por dia...
            É preciso que a Rio+20 surta efeitos concretos. É necessário que se mude a mentalidade e os padrões de consumo, que se deixe de priorizar o lucro imediato, a acumulação de bens. “A terra possui o suficiente para garantir a necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos os homens.” (Mahtama Gandhi) O mundo está se tornando frágil e doente. Caso continuemos nesse ritmo desenfreado de consumo de reservas naturais, de consumo exacerbado, de desrespeito, o futuro nos reservará grandes perigos. É preciso que se forje uma mentalidade de que somos uma única família humana e moradores do mesmo planeta. Devemo-nos unir para gerar uma sociedade embasada no respeito pela natureza, pelos direitos humanos, na justiça econômico-comercial e em uma cultura de paz. É preciso aprender a respeitar e conviver com a natureza!
As palavras de Lester Brow, presidente do Instituto para políticas da terra, ressoa como uma profecia, que compete a esta geração transformar. “O tempo para se mudar de estilo de vida passou. O futuro da humanidade depende, agora, em nos tornarmos politicamente envolvidos e sermos os atores ativos a mover a economia mundial em um caminho de progresso sustentável. A mobilização política e a contribuição diária – em relação e tempo, como nos locomovemos e consumimos – será feito por nossa geração, mas afetará a vida de todas as gerações futuras.”
Podemos nos perguntar, o que tudo isso interfere em minha vida, em meu cotidiano, em minha cidade... Simples, pensar globalmente e agir localmente. É preciso despertarmos para as questões que afligem a humanidade tendo como paradigma de solução as ações dos governos, dos grande conglomerados industriais; mas também a ação de grupos menores, chegando até à ação individual. O que está em jogo são as respostas às perguntas provocadoras e inquietantes: “Que futuro queremos? O  que estamos sonhando para as gerações futuras?” Por isso, acompanhar este evento da RIO+20 é um dever de cada cidadão e cidadã.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O que está acontecendo no mundo?
Geraldo Trindade
O que está acontecendo no mundo? Essa me pergunta me veio quando me deparei com mais uma onda de protestos na Líbia, depois de ter passado pela Tunísia e Egito. Além desses países os protestos se espalharam pela Argélia, Iêmen e Jordânia.  O que anseia os homens e mulheres da região árabe? Por que neste momento histórico eles passaram a protestar e exigir mudanças?
            Digo que não esperava atitudes tão corajosas de povos que nós, ocidentais, tínhamos como dóceis a governos ditadoriais.
            Mas, acredito também que essa revolução não foi parida prematuramente. Vivem há anos marcados pela pobreza, desemprego, perseguições...
            As pessoas querem e buscam formas de viver cada vez melhor: querem ter seus trabalhos remunerados devidamente, querem poder sonhar com o futuro de seus filhos, querem sentir parte de uma comunidade que os respeitem e que busquem fazer o melhor para suas vidas. Porém, o que se vê nesses países são governos que sugam todas as forças de seu povo e não lhes dá nenhum retorno. São governos opressores, religiosos opressores, polícia opressora, que buscam a satisfação de seus próprios interesses enquanto a pobreza, a fome, o desemprego só fazem crescer.
            Os cidadãos, que nós, ocidentais, nunca pensaríamos que contrariariam a ordem vigente, estão dizendo um basta aos ditadores de óculos pretos, cabelos pintados, que exibem seus ouros e são cheios de extravagância. O povo diz um não forte não por causa da política internacional, mas puramente por seus “representantes” não lhes assegurar aquilo que seus direitos. Ainda mais, que a grande massa que acorre às ruas com coragem serem jovens que não pertencem e nem defendem as tradições nacionalistas, de um estado árabe e teocrático. Essa geração é marcada pela sede de liberdade, de espírito e informação. Eles estão conectados  às grande redes de relacionamento, o que muito tem favorecido a disseminação das idéias e a organização dos eventos.
            O que mais espanta é o Ocidente, pregoeiro da liberdade e da democracia, dizer que é preciso esperar um pouco, que é necessário calma e prudência. Cadê os países que encabeçaram e defenderam intervenções militares no Iraque, Afeganistão sob o pretexto de defendê-los da dominação déspota de ditadores? O que transparece é que liberdade e democracia devem ser oferecidos a conta gotas, desde que não atrapalhem os planos dos poderosos. Como podem refrear as aspirações mais puras de democracia de povos dominados pela exploração e pela falta de senso de seus governantes?
            Pena que não nós, simples cidadãos sensibilizados com os acontecimentos da região, não possamos oferecer a democracia sonhada e ela seja fruto que custa muito sangue, suor e lágrimas.
            No entanto, fica-nos uma lição e uma certeza: a de que não podemos ficar estagnados ante às necessidades dos outros. Esses governantes passam agora pó apuros, mas porque passaram anos cuidando e governando só a partir de seus próprios interesses enquanto seus compatriotas ficaram relegados à miséria e ao descaso. Agora a história trata de cobrar seu preço e sua conta.
           
           

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O que penso neste início de ano
Geraldo Trindade
                Assisti no dia 1º de janeiro o desfile inédito da primeira presidente ( é como prefiro chamar) Dilma Rousseff. Ouvi seus pronunciamentos, como também de alguns governadores empossados. Para completar o quadro épico a platéia era evidentemente de rostos conhecidos: deputados, senadores, personalidades do ramo político; ou seja, velhos rostos conhecidos.
                Em meio a tudo isso, preferi pensar o que leva uma pessoa a pleitear e assumir cargos públicos: presidência, senado, câmaras, prefeituras.
                Pois bem, o que vejo? E também o que não vejo, mas suspeito.
                Às vezes a política me constrange e me deixa envergonhado. Parece que tudo é interesse, não só dos políticos (que certamente os tem em exacerbância), mas também dos eleitores. A moral, o ser e agir correto descarrilharam-se e foram parar em um  lugar inóspito, onde ninguém os encontram. Alia-se a isso o foco desfocado do bem comum para os interesses próprios. Os discursos, as posturas, as idéias e os ideais (para meu espanto) são voláteis, de acordo com o interesse, não comum, mas particularmente (geralmente, o da conta bancária e do poder). O que transparece é que o poder e dinheiro são sempre bem-vindos a qualquer custo.
                Mais uma vez, a política me constrange e me envergonha.
                Acompanho a atribulada vida política do Brasil pelos meios de comunicação (que certamente, não noticiam tudo com imparcialidade). Minha reação é de perplexidade. Espanta-me ao ver que pessoas que roubam dos cidadãos brasileiros são tratados com deferência em fóruns privilegiados (quem rouba é ladrão; essa é a lei geral. Será?). Mais me espanta ainda é ouvir da parte de pessoas “que é isso mesmo”, que “se fosse ele faria pior”(isso me doi, pois demonstra ser igual ou pior que o defraldário).
                Tudo isso me constrange e me envergonha.
                Para não me acusarem de só apontar falhas ( que me incomodam) prefiro ir pensando além. A política não é lugar de competição, de partidarismo, de disputas por cargos, mas é lugar de práticas de cooperação em vista do bem comum (disso não se pode abrir mão). Nessa re-transformação da real missão da política devem estar enganchados os próprios políticos, intelectuais, agentes culturais e nós, cidadãos e cidadãs de bem, que a cada dia procuramos viver corretamente e preferimos viver assim para podermos dormir os sonos dos justos a noite.