sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Rastros de luz: Dom Luciano Mendes e Dom Hélder Câmara


Geraldo Trindade 


          

       O arcebispo marianense, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, é lembrado pela sua grandeza espiritual. Não foi apenas bispo, mas também companheiro, pastor, irmão de todos, doce e amável no trato. Quem o conheceu teve dele uma acolhida marcante e ímpar. Este próximo 27 de agosto remonta àquele de 6 anos atrás, quando este grande homem despedia-se deste mundo e adentrava aos céus com as palavras “Deus é bom!”

    O “bispo dos pobres” como era comumente chamado viveu sua fé na radicalidade e por isso se tornou um eco profundo de que se deve acreditar em Deus e  colocar em prática os valores evangélicos. Ele sabia como ninguém amalgamar a vida e a oração, não apenas em sua expressão verbal ou declarativa; mas plena na ação real e concreta. Ele soube, em meio às dores físicas e espirituais, aceitar a cruz por si mesma, pelos outros, pelos sofredores anônimos que padecem e por isso tocaram com profundidade a alma de Dom Luciano.

            As palavras, os gestos, a vida de Dom Luciano colocam em xeque as nossas palavras, gestos e a nossa vida. O bispo marianense sofria de alto senso de dignidade humana, que, muitas vezes, era incompreendido. Ele sofria com o outro, comportava-se com os outros tratando todos como iguais, dignos de confiança. Ele via em cada pessoa uma criatura amável, lida e admirável. Por tudo isso, ele foi deixando um rastro de luz por onde passou.


            A Comenda Dom Luciano Mendes de Almeida de Mérito Social e Educacional outorgado pela Arquidiocese de Mariana será no próximo dia 27. A homenagem à Dom Luciano terá início com uma celebração eucarística, na Catedral, às 18h30, seguida da sessão solene, no Centro Cultural Arquidiocesano Dom Frei Manoel da Cruz, onde será conferida a honraria da comenda aos homenageados: Dom Walmor Oliveira de Azevedo (arcebispo de Belo Horizonte), Dom Francisco Barroso Filho (bispo emérito de Oliveira), Dom José Belvino do Nascimento (bispo emérito de Divinópolis), Mons. Flávio Carneiro Rodrigues (diretor do Arquivo Eclesiástico de Mariana), Mons. Júlio Lancelloti (Vigário Episcopal para o Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo) e as Irmãs da Beneficência Popular.

            É também neste dia, que nossas memórias se misturam pela lembrança de outra figura singular, Dom Hélder Câmara, que foi arcebispo de Olinda e Recife. Ambos, dom Luciano e dom Hélder, souberam viver neste mundo a diaconia cristã, do serviço fraterno, alegre e impetuoso, pois eram tomados pela fé em Cristo e em seu projeto de salvação. Eles nos envergonham pela radicalidade e fidelidade ao Evangelho, pois sabiam que o mundo, sofrido, complexo, pluricultural, midiático e ideário, é espaço absoluto e completo da ação do evangelizador. Souberam anunciar as verdades da fé cristã no amor ao pobre, ao sofredor, à criança órfã, ao doente abandonado, ao faminto que clamava um pedaço de pão...

            Caracterizam estes santos homens a expressão de que souberam revestir-se de cotidiano as verdades eternas do Reino prometido. Esta atitude exige ser tomado pela pura humildade na mais completa atitude de ser servidor, tornando presente o amor de Jesus aos simples e pequenos. “Quando fizestes a um desses irmãos mais pequeninos, a mim fizestes.” (Mt 25, 40)


segunda-feira, 23 de abril de 2012


Acompanhar a RIO+20 é um dever de todo o cidadão

Geraldo Trindade – bacharel em filosofia.



O mundo voltará sua atenção para o Brasil nos dias 20 a 22 de junho de 2012. Não por causa de algum evento de cunho esportivo ou religioso, mas pela reunião dos 193 países que compõem as Nações Unidas para a discussão de temas como o desenvolvimento sustentável e o combate a pobreza. A cada 10 ou 20 anos realiza-se essas conferências, que já ocorreram em Estocolmo (Suécia) em 1972, no Rio de Janeiro – ECO-92 em1992, em Joanesburgo (África do Sul) em 2002 e agora presenciaremos a RIO+20, que pretende lançar base para o mundo que queremos para o futuro e as próximas gerações.
         A Rio+20 é um impulso, um ânimo novo na sustentabilidade da ação humana no mundo, que está tão predatória e inconsequente. É preciso que se crie consciência e solidariedade para que os desafios como poluição, extinção, aquecimento global, desigualdade, fome, desrespeito à vida, educação básica de qualidade, mortalidade infantil sejam debatidos e enfrentados com seriedade e boa vontade política.
            De certo é que nesta conferência dois temas dominem a discussão. Um deles, é a economia verde, tendo em perspectiva a busca de um desenvolvimento econômico sustentável, não se esquecendo da preservação ambiental. Tudo isso, passando, necessariamente, pela erradicação da pobreza. Outro tema que surgirá nas discussões é a governança global, já que é impossível pensar uma ação em favor do ambiente e da vida se não for abraçada de modo global.
            A importância deste temário se dá quando nos damos conta de que estamos no esgotamento dos recursos naturais do planeta Terra. Já se consumiu 1/3 de toda biodiversidade; 25% das terras estão se desertificando; hoje 1 bilhão de pessoas passam fome; 40% da humanidade está abaixo da linha de pobreza; somente 30% do esgoto gerado é tratado; por falta de comida milhares de pessoas morrem por dia...
            É preciso que a Rio+20 surta efeitos concretos. É necessário que se mude a mentalidade e os padrões de consumo, que se deixe de priorizar o lucro imediato, a acumulação de bens. “A terra possui o suficiente para garantir a necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos os homens.” (Mahtama Gandhi) O mundo está se tornando frágil e doente. Caso continuemos nesse ritmo desenfreado de consumo de reservas naturais, de consumo exacerbado, de desrespeito, o futuro nos reservará grandes perigos. É preciso que se forje uma mentalidade de que somos uma única família humana e moradores do mesmo planeta. Devemo-nos unir para gerar uma sociedade embasada no respeito pela natureza, pelos direitos humanos, na justiça econômico-comercial e em uma cultura de paz. É preciso aprender a respeitar e conviver com a natureza!
As palavras de Lester Brow, presidente do Instituto para políticas da terra, ressoa como uma profecia, que compete a esta geração transformar. “O tempo para se mudar de estilo de vida passou. O futuro da humanidade depende, agora, em nos tornarmos politicamente envolvidos e sermos os atores ativos a mover a economia mundial em um caminho de progresso sustentável. A mobilização política e a contribuição diária – em relação e tempo, como nos locomovemos e consumimos – será feito por nossa geração, mas afetará a vida de todas as gerações futuras.”
Podemos nos perguntar, o que tudo isso interfere em minha vida, em meu cotidiano, em minha cidade... Simples, pensar globalmente e agir localmente. É preciso despertarmos para as questões que afligem a humanidade tendo como paradigma de solução as ações dos governos, dos grande conglomerados industriais; mas também a ação de grupos menores, chegando até à ação individual. O que está em jogo são as respostas às perguntas provocadoras e inquietantes: “Que futuro queremos? O  que estamos sonhando para as gerações futuras?” Por isso, acompanhar este evento da RIO+20 é um dever de cada cidadão e cidadã.

terça-feira, 27 de março de 2012

Refletindo sobre a Campanha da Fraternidade 2012

 Geraldo Trindade

  
        Em sua 49ª edição a Campanha da Fraternidade promovida pela Igreja Católica suscita debates, reflexões e posturas diante do tema abordado: “Fraternidade e saúde pública” e o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra.” A esperança é grande porque os objetivos são audaciosos e pretensiosos. Eles deverão ser transformados em ações para que se adotem hábitos de vida saudável, promova-se o cuidado ambulatorial e hospitalar aos doentes e que se melhore o sistema público de saúde.
            Além de todos esses contributos, é preciso que todos nós voltemos o nosso olhar para os enfermos neste tempo em que a cultura e a mídia exaltam a beleza, o culto ao corpo, à saúde e à forma física. Nesse contexto, o enfermo acaba por ser relegado a um segundo plano, um peso para a família e um ônus para o estado. Em pleno século 21 é preciso alertar para o risco de não relegarmos ao esquecimento o ser humano, o nosso próximo, o nosso irmão e irmã. É preciso cada dia mais sensibilidade!
            Em meio a tantos avanços médico-tecnológicos, há ainda hospitais onde se formam filas de espera imensas, onde se faltam atendimentos adequados, há escassez de leitos hospitalares e poucos recursos dedicados à saúde.
            A saúde é um direito e não pode, em hipótese alguma, ser negada e os enfermos são seres humanos, brasileiros, cidadãos necessitados de cuidado e proteção. Se se compreende isso, a doença e o sofrimento devem ser apelos à irmandade, à solidariedade, à igualdade, pois nenhuma dessas realidades fazem distinção de pessoas, de raça, de credo ou de status. Por isso é que devemos lutar constantemente em favor da vida e combatermos tudo o que incorre para ela, inclusive o que impede com que os que os doentes tenham acesso ao tratamento e ao cuidado necessário na família e na rede pública.
            Ante a tudo isso, a Igreja não pode e não fica inerte, mas se comporta como Igreja-samaritana. “A figura do bom samaritano assume a condição de modelo para a ação evangelizadora da Igreja no campo da saúde e no campo da defesa das políticas públicas.” (Texto base da CF 2012, 191) Ela, a Igreja, por meio de cada batizado, seguidores de Cristo, acolhe os doentes, cuida deles, infunde a força e a esperança em suas vidas. Sob esta ótica do samaritano devem também funcionar todas as instituições ligadas ao cuidado da saúde humana. Lugares de acolhida e de cura.
            A Campanha da Fraternidade não deve encerrar com o término do tempo quaresmal. A problemática da saúde é atual e deve ser continuada a sua reflexão e mais ainda ações concretas em favor que de um sistema de saúde mais igualitário e eficiente.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A importância do cuidado espiritual na saúde – CF 2012

Geraldo Trindade – bacharel em filosofia

            A Campanha da Fraternidade neste ano de 2012 em sua 49ª edição vem colocar em realce o tema da saúde pública, que por sua vez evoca a temática do cuidado.
            “Cuidar” implica instantaneamente o descentralizamento em si para focar-se no outro. Esse é o princípio-ativo de toda e qualquer profissão; em especial, àquelas ligadas à saúde. Este cuidado não se limita somente ao aspecto fisiológico, mas perpassa os elementos afetivos, éticos, sociais e espirituais.
           O “cuidado” autêntico é marcado pelo amor e o expressa plenamente. Ele faz o outro sentir-se especial, implica o interesse pelo outro, pelo seu passado, pelo futuro e pela sua história. Faz o outro sentir-se seguro em suas mãos, aproxima-se dele, mesmo sabendo que não pode lhe oferecer a cura.
            A partir de então, vem a pergunta: “Qual a marca que deixamos em nossa vida e na vida daqueles com os quais nos relacionamos?” Essa busca de sentido é  um árduo caminho trilhado por todo homem e mulher.
            Toda pessoa vive em uma constante busca de respostas e explicações que lhe garanta o sentido da vida e das suas escolhas. Diante destas questões e problemas existenciais é preciso questionar: o cuidado da nossa saúde pública tem como finalidade e propósito apenas o cuidado da doença, esquecendo seu lado espiritual? (cf. SILVA, MJT. Espiritualidade como foco de atenção de enfermagem. 3º Congresso Brasileiro Nursing, 2005. Anais. São Paulo, 2005.)
            A espiritualidade deve ser cada dia mais buscada e valorizada na arte de cuidar, ainda mais em relação às pessoas adoentadas. Ela, a espiritualidade, possibilita um cuidado mais global do paciente, estabelecendo um círculo relacional rico entre equipe médica, paciente e família. Porém, o que se vê nos hospitais é um cuidado setorial, marcado pela especificação. Todo ser humano é um todo-integral, corpo e espírito, e isso não se ausenta quando este adoece. Mesmo que a esperança advinda de um processo espiritual pode não seja a cura do paciente, pelo menos propicia a ele o ânimo necessário para que batalhe pela sua melhora.
            Tendo feito essas considerações, o lema da CF 2012 “Que a saúde se difunda sobre a terra” (Eclo 38,8) é atual e pertinente. Faz-nos repensar todo um complexo que se foi estruturando no paciente como número e protocolo ao invés de focalizá-lo como sujeito. Por isso, os pontos que se seguem leva à percepção da espiritualidade e sua ligação íntima com a saúde e os procedimentos médicos:
  • O ser humano é um mistério aberto ao infinito e ao Absoluto, ou seja, à Deus.
  • O ser humano é constituído de corpo e alma, por isso toda e qualquer doença deve ser analisada e tratada tendo em vista a globalidade de cada homem e mulher.
  • O conjunto de experiências vividas influi decisivamente na forma como se enfrenta as enfermidades e adversidades.
  • A con-vivência natural e espontânea entre equipe médica – enfermagem e pacientes deve ser enriquecedora e profícua para ambas as partes em um enriquecimento mútuo.
  • As situações cotidianas que acarretam stress influem decisivamente na inteligência emocional e podem acarretar problemas na saúde.
  • O amor não é para ser direcionado em uma única direção, mas ao todo e à todos.
        Portanto, a espiritualidade no âmbito da saúde é ampla e pertinente. Daí a necessidade de todos os envolvidos nesta área não menosprezarem seu lado espiritual, sua relação pessoal e íntima com Deus, e, não descartar a experiência espiritual dos pacientes. É preciso que termos como: cuidar, respeitar, conviver, ser ético, envolver-se relacionarem-se diretamente com a espiritualidade; pois não se pode idealizar saúde com uma realidade abstrata e dissociada, mas como equação de diversas interações da vida.  À luz de Cristo, no espírito do bom samaritano, a Igreja sempre esteve presente na vida daqueles que se encontram debilitados, sendo que incentiva os seguidores de Cristo a realizarem ações que concretizem as obras de misericórdia e vida plena (cf. Jo 10,10), especialmente os mais necessitados, por isso ela exige a sabedoria e a ética samaritana para cuidar das pessoas.

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