sábado, 5 de março de 2016

Qual deve ser a atitude de um cristão?

Geraldo Trindade 

            Muito se fala, discute e escreve sobre a situação brasileira. Na verdade, sobre o caos que impera sobre todos nós e um precipício se apresenta à nossa frente!
            Vivemos ou pior, experimentamos na pele a catástrofe econômica, onde cada dia mais as famílias perdem seu poder aquisitivo. Além disso, temos uma crise política onde os representantes, que deveriam liderar e trabalhar para o bem comum se esbaldam em negociatas e puro desprezo pelo bem público. O que vemos é uma maquina público-administrativa que é incapaz de garantir bom serviço nos setores da saúde, educação, segurança, transporte públicos, água e energia elétrica. Não se pode culpabilizar a falta de um orçamento que garanta melhorias no serviço público porque a sensação que se tem é que  os recursos não são escassos quando se trata de transferências do dinheiro público para as contas pessoais, gerando a enojada corrupção, tão conhecida e praticada descaradamente à revelia do bem do povo.
            Parece que os valores estão invertidos, que nada mais caminha como deveria caminhar. Vemos os bons estagnados enquanto os desonestos buscam seus “jeitinhos” para tirar vantagens que envergonham qualquer pessoa de caráter!
            Ainda há muitos problemas que não têm acesso à educação de qualidade, recebem baixos salários e têm dificuldade em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como educação, transporte público e saneamento básico. As drogas cada dia mais ingressam nos variados ambientes e disseminam um rastro de morte e violência pelas cidades e famílias.
           Qual deve ser a atitude de um cristão? De que modo se pode influenciar em um mundo tão cheio de mal, corrupção e violência? 
            Jesus usa duas imagens: sal e luz (Mt 5, 13-16).
            O sal é que dá sabor, dá tempero àquilo que está insosso; evita que se perca o alimento, além do sal estar associado à pureza. Dessa forma, o cristão deve dar novo sabor ao ambiente que lhe cerca, evitando que o mal progrida e avance na vida e no coração. Não se deixando apodrecer pelas consequências do pecado. Jesus em outra passagem nos alerta: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).
            A luz é um símbolo muito especial nas Sagradas Escrituras. “Deus é luz e nele não há treva alguma” (1 Jo 1, 5). “O povo que andava em trevas viu grande luz” (Is 9, 1). Jesus se referia a ele como luz: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (Jo 8, 12). Os seus discípulos, os que permanecem junto a Ele também são luz. Por meio deles a luz de Cristo se manifesta em cada rosto, nas palavras, nas ações, e ilumina o mundo. A luz elimina as trevas como também as boas obras eliminam cada dia mais o mal da nossa vida, ou seja, no testemunho diário deve-se proclamar o modo de Jesus agir. Dessa forma, as boas obras praticadas não devem chamar atenção para quem a pratica, mas para Deus.
            A missão do cristão é dupla no mundo: como sal, para interromper, ou pelo menos retardar este processo da corrupção moral e espiritual, e como luz, para desfazer as trevas. Recorda-nos o papa Francisco: “Não se pode entender um cristão que não seja testemunha. Nós não somos uma ‘religião’ de ideias, de pura teologia, de coisas belas, de mandamentos. Não, nós somos um povo que segue Jesus Cristo e oferece testemunho”.




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O significado da renúncia


Geraldo Trindade – padre na Arquidiocese de Mariana

            No dia 11 de fevereiro de 2013 em um consistório convocado para decisão sobre três canonizações, Bento XVI anunciou, diante de um mundo que parou atônito, a sua renúncia ao Trono de Pedro. O que na época criou vários rumos, prós e contra, após esses três anos podem ser compreendidos a partir do que deve ser compreendido a partir do que deve ser compreendido, ou seja, à luz do mistério de Cristo, que resplandece na sua Igreja e de variados modos e maneiras conduz por meio do Espírito Santo a barca de Pedro por meio do mar revolto.

            Bento XVI sempre foi um acadêmico, um intelectual e um teólogo de grande envergadura. A Sé Petrina lhe tirou a força físisca e espiritual dificultando a condução dos trabalhos e do governo da Igreja. Mas, isso em nenhum momento pode ser encarado sem a dimensão humana e divina do ato porque o ato humano foi redimensionado por meio da oração ao mistério de amor, humildade e desapego que deve caracterizar a vida do cristão. Assim escolheu no recanto de um mosteiro passar os últimos dias de sua vida como sinal de que nas suas preces continuará a sua missão evangelizadora e de amor à Igreja.

            O gesto da renúncia de Bento mostrou claramente que a Igreja, barca de Pedro, não pertence ao papa, mas sim ao seu Senhor, Cristo Jesus. Com seus gestos singelos e firmes, Bento XVI exerceu com maestria seu trabalho apostólico e no último gesto do seu pontificado mostrou a importância do desapego às coisas terrenas. No seu último Ângelus  falou de forma alentadora: “Não abandono a Igreja, continuarei a servi-la com a mesma dedicação e amor”. E isso tem feito com generosidade e discrição!

            Além do legado espiritual e do seu gesto, o papa emérito exerceu seu magistério pontifício com frutuosidade. Deixou-nos três encíclicas: Deus caritas est (Deus é amor), Spes salvi (Salvo pela Esperança) e Caritas in veritate (Caridade em Verdade). Além de importantes livros de sua própria autoria, como a série “Jesus de Nazaré”, iniciada quando ainda era Cardeal. Bento XVI soube dar continuidade à “Primavera da Igreja”, à qual o Concílio Vaticano II exortou. E, por fim, deixou o “Ano da Fé” e a proposta de uma nova evangelização.  Lutou na defesa da vida e da dignidade humana buscando expandir a voz do antecessor,  São João Paulo II. Apresentou reflexões mostrando a dignidade de filhos de Deus além da  reafirmação dos valores morais cristãos, pelo firme não à “ditadura do relativismo” e constante diálogo com as demais religiões.

A renúncia de Bento XVI trouxe à Igreja o nosso Francisco. A certeza de continuidade é própria da nossa fé. O apóstolo Paulo vem nos lembrar: “um é o que planta, outro o que rega e outros os que colherão os frutos” (cf.1Cor 3,6-9).  O Papa Bento XVI plantou uma semente de esperança com a sua força de fé e compromisso com o Senhor Jesus, e juntos devemos regar a mesma semente a fim de que produza frutos para a honra de Jesus Cristo.  

Devemos ver  a história da Igreja com confiança em Deus e acima de tudo fé. Sabendo que são verdadeiras as palavras de Jesus sobre o Mistério, que é a Igreja, que brota do Seu coração aberto na Cruz, "As portas do inferno não prevalecerão!" (Mt 16, 18).Estas palavras permanecem inabaláveis e verdadeiras através dos séculos!


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dom Luciano, servo de Deus e da alegria

Geraldo Trindade
  
Dom Luciano Mendes de Almeida soube viver a alegria do evangelho como nos propõe o papa Francisco. Soube enxergar em todas as ocasiões e momentos a oportunidade de viver a alegria do evangelho, mas, sobretudo, de anunciar esta alegria aqueles que mais necessitavam: os mais necessitados, os mais carentes, os mais pobres, os mais desprezados pela sociedade. Dom Luciano soube viver a alegria do evangelho contornando sua vida pelos preceitos da caridade, do amor ao próximo, do serviço, da doação, da disposição em abrir mão de sua vontade para realizar a vontade de Deus. Soube ser sábio sendo simples. Servidor sem ser submisso. Alegre sem ser faceiro. Comprometido sem ser extremista. Pela palavra e pelo exemplo, dom Luciano deixou sua marca no chão mineiro da Arquidiocese de Mariana.
  Dom Luciano nasceu no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 1930. Viveu sua vida segundo seu lema episcopal  “In nomine Iesu” (Em nome de Jesus). Era arcebispo de Mariana quando faleceu aos 75 anos de idade.  Exerceu funções de relevância na Igreja, participou de diversos sínodos em Roma, foi secretário geral e presidente da CNBB, fez parte do Conselho Permanente desta entidade, atuou na Pontifícia Comissão Justiça e Paz, do Conselho Episcopal Latino-Americano.
Dom Luciano marcou o coração de inúmeras pessoas, marcou porque todos nós precisamos de exemplos e de bons exemplos. Precisamos ser radicais em nossas escolhas e ele viveu isso completamente em sua vida! Celebrar mais um ano do “dies natalis” (dia 27 de agosto, dia em que faleceu) deste servo bom e fiel de Deus é oportunidade de resgatar em nossa memória o grande bem que o arcebispo de Mariana realizou em favor da sociedade brasileira e da igreja católica.
Agora como seu processo de beatificação e canonização aberto, dom Luciano é servo de Deus, servo da caridade, do amor e do próximo, servo do outro totalmente Outro, servo do outro totalmente Irmão. Dom Luciano percorreu em todos os âmbitos, ambientes e realidades porque os santos são aqueles que não se acomodam às situações, mas os que enxergam além.
Dom Luciano é símbolo, ícone de uma caridade, de um cristianismo que cada dia mais precisamos resgatar em nossa vida. Os relatos de pessoa que conviveram com dom Luciano são marcados por um senso de humildade que transparecia em todas as suas ações, mas ao mesmo tempo de grandeza nos pequenos gestos do arcebispo. No olhar, no encontro com alguém e ver nele uma história, uma vida, um sonho. De em cada um perceber uma experiência que não pode ser perdida. Por esta singeleza da ação, por esta alteridade totalmente cristã, dom Luciano pode ser chamado o irmão do outro. Nem amigo, nem colega, nem conhecido, mas irmão, que sentiu a dor, que se aproximou, que viu, que sentiu e amou! O apóstolo do amor e da caridade mostra que só se é possível viver o cristianismo amando, só se pode ser cristão despojando-se de toda e qualquer vaidade!


domingo, 16 de agosto de 2015

O dominó da desmoralização

                                                                                                                  Iury Nascimento*

É agravante a decadência moral da sociedade pela falta de consciência de muitos cidadãos, governantes e governados. Tudo está sendo reduzido a nada, o homem está deixando de ser aquilo que é pra se tornar coisa; é um verdadeiro dominó desmoralizante. A sociedade está perdendo a capacidade de distinguir o bem e o mal, ou não quer nem distinguir para satisfazer a seus próprios instintos.

Estamos no estágio de desumanização, um mundo que pisoteia a sua própria consciência negando a sua própria humanidade. “Será inócuo encher as páginas de leis e as prateleiras de códigos, como também será inócuo encher as ruas de policiais, enquanto a humanidade na for chamada a respeitar a própria consciência.” [1]. É isso que acontece, quando o homem exclui a própria lei da consciência. Ele fica cego, desorientado, causando uma grande desordem moral.

É o que vemos na sociedade (e no mundo), governos querendo legalizar o assassinato de seres humanos inocentes, abrindo as portas para o “casamento” de pessoas do mesmo sexo, a destruição do conceito de homem e mulher com a Ideologia de Gênero; a venda de fetos assassinados cruelmente. É o homem destruindo a sua própria humanidade, levando a sociedade a perder aos poucos sua alma e sua esperança.

“A maior crise da sociedade é a da consciência. Rouba-se, mata-se, corrompe-se, tapeia-se, prostitui-se, engana-se... como se as consciências estivessem mortas, e como se Deus não existisse.” [2] Precisamos dar um salto moral, começando pelas famílias, hoje tão atacadas por tantas ideologias que tentam desmontar a célula motriz da sociedade. Os pais precisam se conscientizar e fazer alguma coisa para que a educação dos seus filhos, não seja regida primeiramente pelo Estado; são os pais os primeiros educadores de seus filhos.
A escola hoje está se tornando, ou melhor, já é um lugar que ao invés de educar os nossos filhos para o bom caráter, está destruindo a moral dos futuros cidadãos. Os nossos filhos estão sujeitos às más influências do Estado. O silêncio aqui não adianta, ou tomamos uma posição frente ao que está acontecendo ou seremos engolidos e esfacelados por essa decadência moral. Somos homens e mulheres com consciência e sabemos o que é errado e o que é certo, porém se não lutamos pelo bem moral, o mal aos poucos vai obscurecendo o que é bom.

Dizia um filósofo existencialista cristão, chamado Gabriel Marcel: “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive.”. É isso que está acontecendo na sociedade em que estamos, acabamos pensando que o que estamos vivendo é normal; acabamos julgando normal abortar bebês, (homossexuais) pessoas do mesmo sexo se casarem, a venda de fetos abortados etc., e sufocamos a nossa consciência, às vezes reta e bem formada, pela qual sabemos que tudo isso, não é normal.

Tenhamos uma tomada de consciência à frente da sociedade, e lutemos para que ela seja consciente, justa e bem formada; que segue a razão, “de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador.”. [3]


* Iury Nascimento é leigo, pregador católico e ministra cursos de formação básica sobre temas católicos. Mantém o blog: http://evangelizarr.blogspot.com.br/

Referências
1. AQUINO, Felipe. A moral católica e os dez mandamentos. Lorena, Cléofas, 2010.
2. Idem.
3. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. § 1783.