Geraldo Trindade
bacharel em filosofia, cursa teologia no
Seminário Arquidiocesano de Mariana
Somos bombardeados pelos meios de comunicação, internet, jornais e telejornais, que, variavelmente, assusta-nos com notícias de violência e banalização da vida. Mata-se por qualquer motivo como se o aniquilamento do outro fosse a solução para todos os problemas e divergências.
Em meio a ondas de
violências e assassinatos, muitas vozes se levantam para reduzir a
criminalidade e uma das soluções apresentadas é a redução da maioridade penal. Da década de 90 para os dias de hoje,
a violência foi crescendo gradativamente e se tornando um problema social. O
Instituto Sagaris em 2012 elaborou um Mapa da Violência que destacou entre o
ano de 1980 e 2010 um aumento de 259% de assassinatos no Brasil. No último ano
da pesquisa houve quase 50 mil assassinatos. A taxa de homicídios atingiu
26,2/100 mil habitantes. Esse número, assustadoramente, supera países em guerra
e em conflitos.
As causas para o
aumento da violência no Brasil, que é conhecido pela ausência de conflitos
étnicos, raciais e religiosas, são várias e envolvem questões de ordem
econômica, social, política, demográfica e cultural.
A criminalidade e
a violência estão associadas a pobreza e a desigualdade social. A redução do
índice de pobreza não tem vindo acompanhado da redução da criminalidade, pois
em comunidades carentes muitas pessoas, jovens e crianças, continuam sendo
aliciadas e têm no crime uma opção de ascensão social e status. O sistema
penitenciário não garante a nenhum condenado judicialmente a recuperação
sócio-educativa e muitas vezes funciona como espaço de “aprendizado e
aperfeiçoamento” nas organizações criminosas. Além do mais, há no imaginário
popular a certeza de que a impunidade é mais eficiente do que a justiça.

As políticas públicas
falham, em muitas vezes, na prevenção, em termos de educação, moradia e
emprego. Onde o estado não provê o direito do cidadão, o crime organizado e a
criminalidade tomam espaço. É preciso introduzir em termos educacionais temas
como cidadania, ética, educação para o trânsito, relações interpessoais, educar
para uma consciência de solidariedade e valorização da vida, com a participação
efetiva das famílias e da comunidade. O
“educação para todos” tem tido grande avanços em termos de agregação e
público atingido, porém também cresce e se perpetua o analfabetismo funcional,
que é quando o estudante chega ao ensino médio sem os mínimos conhecimentos em
aptidões básicas de leitura e interpretação. Mesmo assim, quase 3 milhões de
crianças não tem acesso a um sistema de ensino regular

Assim, toda
evolução tecnológica e de acesso às facilidades da modernidade vem acompanhada
de uma ascensão de consciência por meio de referenciais éticos na família, na
sociedade, na política, nos meios de comunicação (tv, rádio, internet), nos
esportes, nas escolas, nos trabalhos...
A redução da
maioridade penal que se ventila ser aprovada no legislativo brasileiro não é a
solução para o problema da violência, que é somente a ponta do iceberg. Todos
os problemas citados não são do desconhecimento da sociedade, mas que não exige
mudanças; ao contrário, tolera e aceita. Quando acontece crimes em que estão
envolvidos menores, imediatamente dá o grito e cobra, exigindo punição e
castigo.
A proposta de
redução da maioridade penal vem para encobrir as fissuras existentes na
eficiência do poder público na execução das políticas sociais direcionadas às
crianças, adolescentes, jovens e famílias.
Esse
apelo pela redução da maioridade vem como fruto emocional das notícias sobre
crimes bárbaros cometidos por jovens. Mas, não se pode generalizar esses crimes
a todos os jovens e nem acreditar que somente leis mais rígidas serão capazes
de reduzir ou resolver o problema da violência. Também não se pode cultivar um
espírito de desconfiança em relação aos adolescentes. Não se pode anulá-los
como se fossem estorvos, mesmo com seus problemas e conflitos; eles consistem
em parceiros para a construção de uma sociedade melhor.

Em suma,
reduzir a idade penal não aponta e nem garante um futuro de mais respeito aos direitos
do cidadão, pois negar direitos aos adolescentes e jovens de terem assistência
de qualidade e eficiente do estado não gera nenhuma outro direito. Nenhuma
sociedade que prima pela punição gera paz, muito pelo contrário, acaba gerando
mais violência.